Com que idade uma criança consegue saber se é mesmo transgênero?
Em outubro de 2015, Nicole entrou no carro, junto com seu irmão mais velho, sua mãe, seu pai e uma mochila com todas suas bonecas favoritas, para uma viagem de três horas. Ela iria se consultar com um médico sobre sua nova vida.
Nos últimos 18 meses, Nicole, que tem 9 anos, deixou seu cabelo crescer, trocou calças e jardineiras por vestidos rosas e roxos e mudou seu nome.
Estes têm sido tempos difíceis para os pais de Nicole, Kim e Andrew, que passaram a ser desprezados por seu antigo círculo de amigos cristãos e conservadores no Texas (Estados Unidos).
Nicole estava mais feliz do que nunca, mas ansiosa com a viagem. Então, para tentar acalmá-la, Kim colocou para tocar o áudio-book do livro favorito da filha, "Hank the Cowdog" e fez uma parada para comprar kolaches, o doce tcheco pelo qual a região central do Texas é conhecida. Depois, lhe deu um presente adiantado de aniversário: no ano seguinte, quando completaria 10 anos, seus pais dariam a ela a premiada boneca American Girl, assim como fizeram com sua irmã mais velha uma década atrás.
A chegada da puberdade era uma questão de tempo, e ninguém sabia o que isso causaria à criança. Esse era o motivo pelo qual eles se dirigiam a Dallas para ir à clínica Genecis, um dos pelo menos 16 centros nos EUA onde psicólogos, endocrinologistas e assistentes sociais auxiliam crianças que não se encaixam nas denominações comuns de "menino" e "menina".
A chegada da puberdade era uma questão de tempo, e ninguém sabia o que isso causaria.
Nenhuma clínica como a Genecis existia em 2007, quando a pequena Jazz Jennings de 6 anos tornou-se a transgênero mais jovem a ser entrevistada na TV. Naquela época, Barbara Walters lhe perguntou sobre como se referia a si mesma. (“Uma menina", respondeu.)
Naquela época, o diagnóstico oficial da psiquiatria para crianças como Jazz era chamado de "transtorno de identidade de gênero". Naquela época, embora adolescentes e adultos transgêneros pudessem realizar tratamentos hormonais, a forma predominante de tratamento de crianças pequenas que não estavam satisfeitas com seus gêneros era orientá-las em direção à aceitação.
Agora, Jazz é apenas uma das várias crianças transgêneros conhecidas nos EUA. Recentemente, o ator transgênero Jackson Millarker, 8, interpretou um personagem trans na série "Modern Family". Segundo consta, teria sido a primeira vez que isso ocorreu na televisão. A denominação oficial do diagnóstico dessas crianças também mudou, de "transtorno de identidade de gênero" para o menos estigmatizante — embora ainda controverso — "disforia de gênero".
Apesar deste entendimento mais amplo e da aceitação, os adolescentes transgêneros — calcula-se que sejam 1,5% do total, nos EUA, — têm de duas a três vezes mais chances que seus colegas de cometer suicídio ou sofrer de depressão profunda.
Os médicos que trabalham nessas novas clínicas "de afirmação de gênero", como a Genecis, dizem que a melhor maneira de evitar resultados trágicos é permitir que crianças e jovens vivam suas identidades de gênero da forma que quiserem — seja como um menino, como uma menina ou algo entre isso.
Eles dizem que, já que a identidade de gênero está fortemente conectada ao cérebro, crianças a partir dos 3 anos já podem começar a manifestá-la. Assim, quanto mais cedo a sociedade permite que as crianças expressem o gênero que elas acreditam pertencer, mais felizes, menos ansiosas e mais ajustadas socialmente elas ficam. Quanto ao pequeno subconjunto de crianças que demostram acreditam pertencer a um gênero não binário, isso significa deixá-las fazer a "transição social" vivendo como um menino ou menina em tempo integral.
Porém, alguns médicos— assim como um grupo de acadêmicos liberais, cientistas e conservadores religiosos — argumentam que não há como saber com certeza quais das crianças impúberes que se comportam fora das normas de gênero vão se identificar como trans. Algumas pessoas temem que esta abordagem direcione as crianças que estão apenas passando por uma fase a uma “faixa” transgênera muito antes que elas saibam se esses sentimentos vão permanecer. Outros dizem que isso reforça estereótipos ultrapassados — dando aos pais a falsa segurança de que seu menino com traços femininos é na verdade apenas uma menina que nasceu no corpo errado. Os críticos conservadores atrelam o aumento de crianças transgêneros hoje a uma nova e perigosa tendência na criação dos filhos.
Os membros mais radicais de cada grupo têm comparado a abordagem um do outro — seja direcionando as crianças a se identificarem como transgêneros ou para que reprimam suas identidades reais de gênero — ao “abuso infantil”. Infelizmente, não existem muitos dados para ajudar no debate: Nenhum estudo analisou o que acontece posteriormente na vida das crianças que têm permissão para fazer a transição social antes da puberdade, o que deixa famílias como a de Nicole em uma encruzilhada.
Enquanto os cientistas conduzem estudos que ainda levarão muitos anos para serem concluídos, um número crescente de pais têm de tomar decisões sobre os seus filhos agora. Será que eles devem permitir que suas crianças façam a transição sem terem certeza se eles vão ter o mesmo sentimento quanto a isso quando crescerem?
Nicole com sua irmã e sua mãe.
Ilana Panich-Linsman for BuzzFeed News
Nicole nasceu em 2006 em Austin. (“Nicole”, utilizado na matéria para proteger sua privacidade, é seu nome do meio.) Sua mãe biológica era uma usuária de drogas e seu pai era desconhecido. Os Serviços de Proteção à Criança dos EUA assumiram a custódia do bebê ainda no hospital.
Seis meses depois, em um subúrbio conservador a cerca de 35 quilômetros de distância, o casal Kim e Andrew estava buscando uma criança para adoção. Eles utilizaram remédios de fertilidade para conceber a filha mais velha, Olivia, de 12 anos, e depois adotaram um menino de 6 anos, WB. Kim largou seu emprego de enfermeira para educar as crianças em casa e agora queria "apenas mais um filho".
Nicole foi conduzida a uma família adotiva mexicana, mas foi devolvida após eles descobrirem que, apesar de ser metade mexicana, ela também era metade negra. Então a agência de adoção perguntou a Kim e Andrew se eles poderiam ficar com Nicole durante o fim de semana, antes de ela ser enviada para outro lugar.
“Eu disse, ‘Sim, eu fico com o bebê, mas não no fim de semana. Se você quer que eu fique com o bebê, então eu vou ficar para sempre’”, contou Kim. “Nos sabíamos quem deveríamos receber para adoção.”
Desde o momento em que Nicole começou a se movimentar sozinha, ela já preferia coisas de meninas. “Eu odeio atribuir coisas à gêneros, mas nós lhe dávamos caminhões e super-heróis", disse Kim, “e ela sempre queria bonecas Barbie, coisas rosas e cintilantes.”
Tudo bem, eles pensaram — seu novo filho não precisava gostar de caminhões mais do que a filha deles, que adorava livros e estava sempre entretida em histórias de fantasia, precisava gostar de maquiagem e saltos altos. Kim, que orgulhosamente costura as roupas da família, cozinha e faz a limpeza, repudia algumas normas de gêneros: Ela está sempre com seus shorts jeans e tamancos e às vezes veste suas botas de combate, lembranças de seus dias no serviço militar.
Pediatras contaram ao casal que o interesse de Nicole por brinquedos de meninas era apenas uma fase e nada com o que se preocupar. No entanto, alguns de seus amigos da igreja e pais de colegas do grupo escolar tinham outra posição, sugerindo que a criança deveria ser direcionada a atividades mais "apropriadas". Eles tentaram. “Nós estávamos tipo, ‘Bem, nós sabemos que Deus nos deus esse papel por alguma razão. Ele tem coisas maiores guardadas para você'", disse Kim.
Para os aniversário de três, quatro e cinco anos de Nicole, seus pais compraram quaisquer brinquedos de meninos que puderam encontrar — trenzinhos, carrinhos, uma fantasia do Batman. Mas os carrinhos eram usados para brincar de casinha, com carros mamães e carros papais, e a capa da fantasia do Batman transformou-se em uma peruca de cabelos compridos.
Ilana Panich-Linsman for BuzzFeed News
Embora Kim e Andrew não soubessem na época, um debate similar estava se desenrolando entre especialistas médicos de prestígio. Em 2008, dois deles falaram no programa "All Things Considered", da rádio pública NPR, em uma conversa de 23 minutos que é sempre citada por especialistas em gênero nos dias de hoje. O segmento falou de duas jovens crianças, criadas como meninos, que por muito tempo expressaram uma forte preferência por brinquedos e roupas estereotipadas femininas e tinham recentemente começado a agir diferente em casa e na escola. A partir daí, seus caminhos divergiram.
Uma mãe levou seu filho de 5 anos, chamado Bradley, para uma consulta com Kenneth Zucker, psicólogo que tinha fundado uma das primeiras clínicas de identidade de gênero destinada a adolescentes, o Centro de Vícios e Saúde Mental em Toronto. Zucker foi um dos primeiros a adotar o chamado modelo holandês, que recomenda um tratamento para adolescentes com disforia de gênero a base de drogas para bloquear a puberdade. Esses medicamentos são reversíveis, portanto servem essencialmente para ganhar tempo: o adolescente pode decidir desistir de tomá-los e passar pela puberdade com o gênero que foi atribuído ao nascer; ou, depois de alguns de anos, eles podem optar por continuar a sua transição, iniciando o tratamento com estrogênio ou testosterona.
No entanto, Zucker recentemente foi alvo de ataques por sua abordagem com crianças pequenas. Ele estaria as afastando de uma nova identidade de gênero e tentando convencê-las a aceitar os gêneros com os quais nasceram. Alguns dos críticos compararam seus métodos com a "terapia de conversão", as tentativas desacreditadas de "desfazer" a homossexualidade.
A mãe de Bradley contou à NPR que Zucker recomendou que ele brincasse mais com garotos, em vez das amigas que ele tinha na época. Zucker disse que eles deveriam trocar seus unicórnios coloridos e bonecas por brinquedos de garotos, e que Bradley deveria ser desencorajado de desenhar princesas e fadas ou interpretar personagens femininos em brincadeiras de faz de conta.
A 3.500 quilômetros de distância, em São Francisco, o pequeno Jonah, de 5 anos, visitou a especialista em gêneros Diane Ehrensaft, uma até então psicóloga em Oakland que estava testando uma abordagem nova e drasticamente diferente. Ehrensaft insistiu que o rótulo “transtorno de identidade de gênero” — ou qualquer terapia para tratá-la — era inapropriado para Jonah. Em vez disso, disse ela, Jonah estava se comportando mal devido aos anos de frustrações onde não pôde se mostrar ao mundo como uma menina. Ehrensaft recomendou uma transição social completa, e Jonah começou o jardim de infância como uma menina chamada Jona.
Em entrevistas separadas à repórter da NPR Alix Spiegel, Zucker e Ehrensaft denunciaram abertamente a abordagem do outro. Ehrensaft via a identidade de gênero como uma característica fortemente inata e acreditava que crianças a partir dos 2 ou 3 anos poderiam começar a expressá-la. “Eu acredito que nossa identidade de gênero não é definida pelo o que nós temos entre as pernas, mas, sim, por aquilo que está entre os ouvidos — em algum lugar do cérebro”, disse ela. "É praticamente conectado."
Zucker argumentou que essa posição era “espantosamente ingênua e simplista” — uma nova forma de essencialismo de gênero disfarçada como progressismo. Em vez disso, ele via a identidade de gênero de uma criança como algo maleável, moldada pelo ambiente familiar.
O xis da questão é saber o que vai acontecer com essas crianças quando crescerem. Na entrevista, Zucker citou um de seus estudos com 25 meninas diagnosticadas com transtorno de identidade de gênero. Segundo ele, apenas 3, ou cerca de 12% delas, mantiveram o diagnóstico ao entrar na idade adulta, enquanto o resto havia “desistido”. Zucker também disse ter descoberto que 6 das 25 tornaram-se bissexuais ou homossexuais na idade adulta. Se essas crianças tivessem seguido os métodos de Ehrensaft, disse Zucker, eles poderiam ter sido equivocadamente enviados a um caminho de terapias hormonais e cirurgias.
O xis da questão é saber o que vai acontecer com essas crianças quando crescerem.