Pacientes abandonados por famílias seguem internados há mais de dois anos no Wassily Chuc
Dois pacientes estão internados há mais de dois anos no Pronto-Socorro Psiquiátrico Wassily Chuc, em Goiânia, situação que contraria o modelo de assistência em saúde mental adotado no Brasil, que prevê internações curtas e prioriza o tratamento comunitário e a reinserção social. A informação chegou ao Jornal Opção por meio de denúncia, que relata o abandono das duas pessoas, um homem e uma mulher, de famílias diferentes — na unidade coordenada pela Secretaria Municipal de Saúde (SMS).
Diante da denúncia, a reportagem foi até o local, mas não conseguiu registrar imagens nem confirmar visualmente a presença dos pacientes. Em conversa sob condição de anonimato, um funcionário da unidade confirmou a situação e relatou que ambos foram deixados por familiares que nunca mais fizeram contato.
Segundo o colaborador, os parentes teriam fornecido telefones e endereços falsos, o que impossibilitou a equipe social de localizá-los. Ele afirmou que, embora a unidade não possa manter pacientes por longos períodos, não há alternativa diante do quadro dos dois.
De acordo com o funcionário, já foram feitas tentativas de transferência para clínicas privadas credenciadas à rede municipal de saúde, mas, por causa da gravidade dos casos, as instituições recusaram a internação. “Eles são bem tratados aqui, mas, pelo que tudo indica, vão ficar até a morte”, relatou.
O servidor também comentou sobre as condições do prédio. Segundo ele, o espaço precisa de reforma, mas continua adequado para atendimento de pacientes e trabalho dos funcionários. Atualmente, a unidade conta com cerca de 20 pacientes internados, que, em geral, permanecem por três ou quatro dias antes de serem transferidos para clínicas parceiras.
O que diz a Secretaria Municipal de Saúde
Em nota, a Secretaria Municipal de Saúde de Goiânia informou que o Pronto-Socorro Psiquiátrico Wassily Chuc realiza, em média, 650 atendimentos por mês. A unidade possui 17 leitos de observação e a permanência média dos pacientes é de três dias.
A SMS ressaltou que o local não é um hospital, mas um pronto-socorro especializado em psiquiatria. Nos casos em que há necessidade de internação, os pacientes são encaminhados para unidades hospitalares por meio do Complexo Regulador Estadual (CRE).
Sobre os dois pacientes citados na denúncia, a secretaria afirmou que já tentou encaminhá-los a abrigos de entidades filantrópicas, mas, em razão do perfil e dos cuidados necessários, eles não foram aceitos. A pasta disse ainda que não possui dados sobre os familiares e que o caso foi informado ao Ministério Público, que acompanha a assistência prestada.
Situação do prédio e nova ala psiquiátrica
A SMS explicou que o imóvel onde funciona a unidade é privado, o que impede a realização de obras ou reformas pelo poder público. A gestão anterior iniciou processo de desapropriação, mas não houve acordo com o proprietário.
Como alternativa, a secretaria informou que prevê a construção de uma ala psiquiátrica em uma nova Unidade de Pronto Atendimento (UPA) na região sudoeste de Goiânia. O processo licitatório para contratação da empresa responsável pela obra deve começar ainda neste ano. O custo estimado é de R$ 5 milhões, sendo R$ 4 milhões provenientes de recursos do Ministério Público do Trabalho.
Lei antimanicomial
A permanência prolongada de pacientes em unidades psiquiátricas contraria os princípios da Lei 10.216/2001, conhecida como Lei Antimanicomial. A legislação redirecionou o modelo de assistência em saúde mental no Brasil, substituindo a internação forçada e o isolamento por tratamentos comunitários, humanizados e em liberdade.
A lei estabelece que a internação deve ser utilizada apenas como último recurso, quando as alternativas extra-hospitalares forem insuficientes, e prioriza o atendimento pela Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), composta por serviços como os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), residências terapêuticas e hospitais gerais. O objetivo central é a desinstitucionalização e a reinserção social de pessoas com transtornos mentais.
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