Construído em 28 de dezembro de 1917, um casarão histórico resiste ao tempo na esquina das ruas 14 de Julho e Antônio Maria Coelho, no centro de Campo Grande. A construção, onde hoje funciona uma clínica odontológica, guarda um feito raro para a cidade por ter a planta original mais antiga de um prédio ainda de pé, documento feito à mão há mais de um século e preservado no Arca (Arquivo Histórico de Campo Grande). Apesar da importância histórica, o prédio que completa 109 anos em 2026 não faz parte da lista de patrimônios arquitetônicos protegidos do Município. Sem proteção especial, ao longo do tempo a construção sofreu alterações que descaracterizaram parte do projeto original. Segundo o arquiteto Bruno Silva Ferreira, servidor do Arca, o grande diferencial do casarão está justamente na documentação rara. “Esse imóvel é o que a gente tem a planta mais antiga dentro do nosso acervo, de um prédio que está edificado. Existem construções mais antigas em Campo Grande, mas nenhuma com a planta original preservada dessa forma. Esse é o grande diferencial”, pontua. O documento data de 1917 e foi desenhado em escala 1/10, em que cada centímetro no papel equivale a 50 centímetros na obra real. A planta foi feita manualmente, com riqueza de detalhes, incluindo o perfil da fachada, que ainda pode ser reconhecido no prédio atual. “A fachada externa não teve grandes variações. A gente tem o perfil desenhado e ele está lá até hoje. Em cima, embaixo, exatamente como está no desenho”, aponta Bruno. Por conta do valor histórico e da fragilidade do material, que já se desgastou com o tempo, a planta só pode ser manuseada por servidores do Arca, que precisam usar luvas e máscaras no processo. “Ele está extremamente frágil. Ou a gente tem muito cuidado para abrir, ou corre o risco de perder esse material”, explica Bruno. Na planta consta o nome “Gomes e Irmãos” como responsáveis pelo processo na antiga intendência municipal, mas não se sabe quem são, nem o papel exato deles. “A gente não sabe se eram os proprietários, se eram os construtores ou quem solicitou a obra. Na época, isso não era tão bem definido”, destaca o arquiteto. De acordo com Bruno, o casarão segue estilo de arquitetura eclética, em uma versão típica do período. “É um eclético simples, não é nada muito rebuscado ou ornamentado, mas está totalmente dentro do estilo. Ele é anterior ao art déco, que só foi ganhar força na década de 1920”, contextualiza. Mesmo sem estar oficialmente protegido, Bruno defende que o imóvel deve ser incorporado em um regime de preservação. “O imóvel você constrói para você, mas ele também tem função para a sociedade. A partir do momento que ele resiste no tempo e passa a contar a história da cidade, ele não é mais só seu. Ele é seu e da memória de todos”, avalia. Na análise do arquiteto, a memória urbana é um dos fatores que ajudam a cidade a entender quem é e de onde veio. “Se eu não sei quem eu fui, eu posso incorrer nos mesmos erros sistematicamente. A preservação da memória é o registro de uma parte da nossa história”, diz. Hoje, o documento integra o Arca após ser incorporado do arquivo municipal. O trabalho atual envolve a digitalização das plantas e de todas as informações manuscritas. “A gente coloca tudo em uma tabela. Assim, conseguimos cruzar dados sem precisar manusear o original”, finaliza. Todo o acervo do Arca (Arquivo Histórico de Campo Grande) está aberto à visitação na Rua Brasil, 464, no Bairro Monte Castelo. O telefone para informações e para agendar as visitas é o (67) 2020-4335. Acompanhe o Lado B no Instagram @ladobcgoficial , Facebook e Twitter . Tem pauta para sugerir? Mande nas redes sociais ou no Direto das Ruas através do WhatsApp (67) 99669-9563 (chame aqui) . Receba as principais notícias do Estado pelo Whats. Clique aqui para entrar na lista VIP do Campo Grande News .