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Acervo da pornochanchada conta fase polêmica do cinema

Impressos em papéis que já atravessaram décadas, com cores vibrantes e títulos provocativos, cartazes das décadas de 1970 e 1980 ajudam a contar um dos capítulos mais polêmicos do cinema brasileiro. O acervo integra a coleção do MIS (Museu da Imagem e do Som) e reúne materiais que divulgavam filmes da chamada pornochanchada, gênero que marcou época, dividiu opiniões e se consolidou em pleno período da ditadura militar. Fixados nas paredes dos cinemas para atrair o público, os pôsteres estampavam nomes como “PS: Seu Gato Morreu”, “A Pontaria do Diabo”, “Estou com AIDS”, “Corpo e Alma de Mulher” e “19 Mulheres e um Homem”, entre outros. Hoje, décadas depois, o material está disponível para pesquisa e preservado como parte da memória audiovisual do País. “O museu tem o objetivo de ser a salvaguarda, que a própria palavra diz que é salvar e guardar. É ter essa memória desses artistas guardada aqui dentro para que daqui a 100 ou 200 anos, esse material ainda esteja disponível”, explica o coordenador do MIS, Márcio Veiga Segundo ele, a maior parte do acervo chegou ao museu por meio de doações. “Normalmente, os próprios artistas ou as famílias doam esse material. Às vezes, quando alguém morre, a família doa livros, aparelhos, cartazes. Também fazemos busca ativa, quando identificamos que está faltando alguma obra importante e vamos atrás em colecionadores, sebos ou com familiares”, detalha. Entre as centenas de cartazes guardados pelo MIS, estão dezenas de produções ligadas à pornochanchada, gênero que ganhou força principalmente na década de 1970. Misturando comédia popular, erotismo e roteiros leves, os filmes eram produzidos com baixo orçamento e conquistavam bilheterias expressivas. A pornochanchada se consolidou no eixo Rio-São Paulo, onde produtoras independentes mantinham ritmo acelerado de filmagens. O gênero surgiu em um contexto contraditório e, ao mesmo tempo em que o regime militar impunha censura e vigilância, filmes com forte apelo erótico encontravam espaço nas telas. Para Márcio Veiga, há uma leitura histórica por trás desse fenômeno. “Foi uma maneira de fazer com que o cinema fosse um pouco mais desmoralizado. Era uma época da ditadura militar e havia uma preocupação muito grande com os ‘bons costumes’. Difundiu-se muito esse tipo de cinema, exatamente para esconder filmes com uma pegada mais crítica”, comenta. Ele cita como exemplo obras do Cinema Novo, como as de Glauber Rocha. “É muito mais fácil fazer com que um ‘Terra em Transe’ ou ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’ fique escondido em meio a tantos filmes de fácil consumo. As famílias acabavam refutando o cinema nacional como um todo, considerando de baixíssima qualidade,” analisa. Apesar das críticas e do estigma, o gênero também revelou nomes importantes. Entre eles, o sul-mato-grossense David Cardoso, nascido em Maracaju, considerado o “Rei da Pornochanchada”. Ator, produtor e diretor, ele foi uma das principais figuras do movimento e construiu carreira assumindo múltiplas funções nos filmes que realizava. Nos cartazes guardados no MIS, David Cardoso estampa a maior parte. “Ele produzia, dirigia, atuava. Era a mente por trás das obras. Aproveitou essa veia, até porque era um cara bonito, muito querido pelo público desse tipo de conteúdo. Criou a própria produtora e teve sucesso dentro do ramo que decidiu seguir”, comenta Márcio. Embora a maior parte de sua filmografia tenha seguido o viés erótico, David Cardoso também abordou temas sensíveis para a época, como a epidemia de HIV/Aids nos anos 1980. “Ele tocou em temas que naquele momento tinham um impacto muito grande na sociedade”, lembra o coordenador do MIS. Hoje, perto dos 80 anos, o artista segue ativo e chegou a participar recentemente de uma produção cinematográfica, mantendo viva a ligação com o audiovisual. Para o museu, preservar esse material é reconhecer a complexidade do período. “Mesmo com toda a problemática, é um recorte da nossa história. Não tem como negar a história do Brasil”, ressalta Márcio. “Além da preservação, temos o viés educativo. Queremos que estudantes, pesquisadores e o público em geral tenham acesso, possam estudar, produzir trabalhos acadêmicos e compreender melhor esse movimento”, acrescenta. O MIS mantém exposição permanente e prepara novos espaços expositivos, ampliando a área dedicada à memória audiovisual. A visitação e a pesquisa do material estão abertas ao público. O Museu da Imagem e do Som fica na Avenida Fernando Corrêa da Costa, 559. O telefone para informações e agendamentos de visitas é o (67) 3316-9178. Acompanhe o  Lado B  no Instagram @ladobcgoficial , Facebook e  Twitter . Tem pauta para sugerir? Mande nas redes sociais ou no Direto das Ruas através do WhatsApp  (67) 99669-9563 (chame aqui) . Receba as principais notícias do Estado pelo Whats. Clique aqui para entrar na lista VIP do Campo Grande News .

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