O carnaval reacendeu de forma humorada e alegre o estigma do azar rotulado nos ciclos de desenvolvimento e decadência de Corumbá, apregoados pela lenda do final do século XIX envolvendo o polêmico pároco Frei Mariano de Bagnaia. O religioso teria lançado uma maldição sobre a cidade que o chamou de caloteiro por não pagar pelo relógio instalado na torre da Igreja Nossa Senhora da Candelária, construída por ele no final dos anos de 1880. A crença supersticiosa se estabeleceu ao longo de séculos atribuindo os descaminhos econômicos da região a um fato que se propagou e virou meia verdade: o frei antes de deixar a cidade, bateu as sandálias para tirar a poeira e as enterrou em local incerto, rogando que Corumbá só voltaria a se prosperar quando as mesmas fossem encontradas. “Desse lugar cidade não levo nem o pó”, teria dito ele, sobrevivente da Guerra do Paraguai (1864-1870). As sandálias nunca foram encontradas, mas a cidade homenageou Frei Mariano, dando seu nome a uma rua charmosa de paralelepípedos em direção ao Rio Paraguai, e há 20 anos a incorporação da suposta praga aos festejos do carnaval desmistificou aquilo que já se sabia: os revezes econômicos e políticos de Corumbá foram motivados pelo seu isolamento, fim dos ciclos portuário e ferroviário e falta de investimentos. Na noite de ontem, a saída do bloco Sandálias de Frei Mariano pelo centro histórico selou, mais uma vez, o fim de uma superstição que, de certa forma, incomodada o corumbaense. A irreverência, a alegria e a letra de uma marchinha muito bem elaborada e criativa satirizando e chispando o azar envolveram a multidão seguindo um carnavalesco travestido de padre. O bloco foi criado em 2006 pela ativista cultual Heloísa Urt, a Elô, num momento de retomada da cidade. Fora com o chulé do padre! Fora com o azar! Hoje eu quero é folia Hoje eu quero rosetá Na cara do povo - O surgimento do Sandálias contribuiu para resgatar a autoestima da população e a emblemática marchinha criada por Helô, inspirada na lenda, consolidou-se como como uma das manifestações mais tradicionais da folia corumbaense. Um símbolo de irreverência e valorização da cultural. A lenda virou marchinha, que ao longo dos anos se tornou um dos hinos mais cantados do carnaval local. E o frei já é cultuado como um herói mal interpretado... “Incorporar o Frei Mariano é uma alegria, mas o bloco veio também para jogar essa história de praga na cara do povo”, diz Kleber Kosta, 49, profissional de dança, que vestiu a batina e arrastou os foliões pelas ruas da cidade, dentre os quais o prefeito Gabriel Alves de Oliveira. “Corumbá está dando uma guinada, com ou sem as sandálias”, brincou ele. “O Sandálias traz energia boa, muita alegria e diversão, em um ambiente bem familiar e respeitoso ao frei.” À frente do bloco, a aposentada Aparecida Albuquerque, 66, é a guia escolhida por Helô para carregar o estandarte do bloco, o que faz com prazer e felicidade nesses 20 anos. “Não sei onde consigo forças, mas se eu não sair no bloco acho que fico até doente”, comenta, girando a bandeira que identifica o bloco em torno do frei personificado. A sua força vai além da fé. Pelo amor ao carnaval, vai sair no bloco de sujos Cibalena, amanhã, e em duas escolas de samba.