O transporte coletivo de Campo Grande volta ao centro do debate político e urbano. Embalada pelas conclusões da CPI do Transporte, a vereadora Luiza Ribeiro (PT) passou a defender a intervenção no Consórcio Guaicurus e uma reformulação completa do sistema, tendo como eixo principal a implantação da tarifa zero. Para a parlamentar, a discussão vai além do preço da passagem e envolve o próprio modelo de funcionamento do transporte público na Capital. Segundo ela, a gratuidade não representa um benefício sem custo, mas uma mudança na forma de financiamento do serviço — modelo que, afirma, já é adotado em mais de 140 cidades brasileiras. “A tarifa zero não é almoço de graça. É uma política pública que rompe uma barreira concreta que hoje impede milhares de pessoas de se deslocarem pela cidade”, argumenta. Na avaliação da vereadora, eliminar a cobrança direta do usuário amplia o acesso ao trabalho, ao estudo e aos serviços públicos, além de estimular a economia local. Modelo sob questionamento Outro ponto defendido por Luiza Ribeiro é a administração direta do sistema pela prefeitura. Para ela, o atual formato de concessão prioriza a lógica empresarial, enquanto parte significativa dos recursos arrecadados não se converte em melhorias perceptíveis para os passageiros. A CPI do Transporte reforçou esse diagnóstico ao apontar falhas no cumprimento contratual por parte da concessionária. Entre os problemas identificados está o envelhecimento da frota: atualmente, 197 ônibus circulam acima do limite de idade previsto, situação que impacta diretamente conforto, segurança e regularidade das viagens. Recursos disponíveis e frota antiga A discussão ocorre em um momento em que há linhas de financiamento abertas para renovação do sistema. Pelo Novo PAC, o governo federal disponibilizou R$ 4,4 bilhões para aquisição de ônibus urbanos, com condições facilitadas — 48 meses de carência e juros de 6% ao ano. Campo Grande e Dourados já aparecem como municípios elegíveis no sistema federal, dependendo apenas da formalização do Executivo municipal para acessar os recursos. Mobilidade como direito social A proposta da tarifa zero também é apresentada pela vereadora como alinhada à Meta 11.2 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, que prevê, até 2030, acesso universal a sistemas de transporte seguros, acessíveis e sustentáveis, especialmente para grupos vulneráveis. Na leitura da parlamentar, o transporte coletivo deve ser tratado como política pública estruturante, capaz de integrar inclusão social, desenvolvimento econômico e sustentabilidade ambiental. Debate público em abril Como próximo passo, Luiza Ribeiro pretende reunir os integrantes da CPI para que a Câmara Municipal participe da elaboração das bases legais de um novo modelo de transporte para a Capital. O tema será discutido em audiência pública prevista para abril, com participação de especialistas, representantes do poder público e usuários do sistema. A proposta promete ampliar um debate que há anos acompanha o cotidiano dos campo-grandenses: como transformar um serviço alvo constante de reclamações em um sistema eficiente — e, possivelmente, gratuito.