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O minuto que revela quem somos

 Amorte é um dos grandes organizadores da vida social. Como lembram historiadores e filósofos da cultura, ela é o paradigma da perda irrecuperável e, por isso mesmo, o fundamento de toda prática da memória. Os mortos são a quintessência daquilo que deve ser lembrado. Todas as culturas, das mais antigas às contemporâneas, criaram rituais para domesticar o inominável, atribuir sentido à ruptura e reinscrever o morto no tecido simbólico da comunidade. O modo como uma sociedade lida com a morte e o luto não é detalhe folclórico: é índice de seu nível de educação afetiva, de civilidade, de respeito pelo outro. É um termômetro moral. A comemoração dos mortos, ensina a tradição cultural, possui um impulso duplo: de um lado, é recordação, manutenção da presença; de outro, é defesa contra o retorno perturbador dos mortos ao espaço dos vivos. Entre antepassados venerados e espectros inquietos, as comunidades organizam lugares (túmulos, monumentos, mnemotopos ) e tempos (ritos, aniversários, datas) para estabilizar a ordem entre vivos e mortos. Quando esse equilíbrio falha, emergem patologias do social, como a culpa, a hostilidade, o esquecimento. No Brasil, onde o futebol ocupa um lugar quase totêmico na vida coletiva, existe um ritual breve e eloquente: o chamado minuto de silêncio antes das partidas. Em tese, trata-se de um gesto de suspensão do ruído, de reconhecimento público da perda, de inscrição do morto na memória comum. É um rito mínimo e exatamente por isso, profundamente simbólico. Não exige dinheiro, infraestrutura ou tecnologia. Exige apenas silêncio e educação. Exige reconhecer que aquele morto, seja ex-jogador, dirigente, torcedor, vítima de tragédia, pertence, ainda que por um instante, à comunidade ampliada. Mas o que vemos, com frequência constrangedora, é o contrário: gritos, vaias, cantos organizados, apitos. O minuto de silêncio converte-se em minuto de ruído. A homenagem transforma-se em interrupção incômoda do espetáculo. O morto é engolido pela ansiedade do jogo. É duro dizer, mas é preciso dizer que, nesse momento, o torcedor brasileiro desrespeita os mortos. Não se trata de moralismo nem de condenação abstrata da paixão futebolística. O futebol é, ele próprio, um grande ritual contemporâneo, espaço de pertencimento, identidade e emoção compartilhada. Justamente por isso deveria ser também espaço de elevação simbólica. Se há um lugar capaz de produzir silêncio coletivo, é um estádio com milhares de pessoas. Quando isso não acontece, revela-se uma fratura na nossa pedagogia social do luto. Os estudiosos da memória lembram que a modernidade deslocou o luto do âmbito comunitário para uma experiência cada vez mais individualizada, psicologizada. A “morte do outro” tornou-se tarefa íntima, muitas vezes inconsolável. Ainda assim, os rituais públicos permanecem essenciais para estabilizar a ordem entre vivos e mortos. Eles funcionam como índices, como marcas do “foi”, do ter-sido e como narrativas que estruturam a memória coletiva. O minuto de silêncio é uma dessas formas textuais condensadas: uma narrativa muda que diz “aqui houve vida”. Quando o silêncio é sabotado, o que se afirma não é apenas indiferença. É a primazia do espetáculo sobre a memória, da excitação sobre o recolhimento, do “nós” tribal sobre o “nós” ampliado. O morto homenageado pode não ser “do meu time”. Mas o rito exige reconhecer que, antes de torcedores, somos mortais. Que a vulnerabilidade humana nos iguala. Em um país marcado por lutos coletivos mal elaborados, da pandemia às tragédias ambientais, da violência cotidiana às mortes anônimas nas periferias, o desrespeito ao minuto de silêncio não é detalhe protocolar. É sintoma cultural. Revela uma sociedade indiferente à vida e que consome a morte como estatística, mas hesita em ritualizá-la com dignidade. Sociedades civilizadas sabem parar. Sabem que o silêncio é linguagem ética. Sabem que honrar os mortos é honrar a própria humanidade. O estádio poderia ser uma escola cívica de empatia, um espaço de reconciliação simbólica entre vivos e mortos. Quando o minuto de silêncio falha, não falha apenas a organização do evento. Falha um pacto invisível que sustenta a comunidade. O minuto de silêncio não é sobre o morto apenas. É sobre nós. Sobre a nossa capacidade de manter viva a memória sem transformar o outro em espectro perturbador. Sobre a escolha entre o ruído que dispersa e o silêncio que funda. E, sobretudo, sobre a pergunta incômoda: que tipo de sociedade somos quando não conseguimos silenciar por sessenta segundos diante da morte? (*) Paulo Nassar, professor da Escola de Comunicações e Artes da USP

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