João Laranjeiro, ou melhor, João Vicente Ferreira, de 65 anos, é quase um patrimônio da Avenida Afonso Pena. Por lá desde 1972, ele viu de perto o centro da cidade mudar enquanto vendia frutas nas calçadas. O apelido era para ser uma ofensa quando ele era mais jovem, mas João nunca se importou. Enquanto a gurizada ria dele empurrando um carrinho, ele fazia dinheiro e a fama de bom vendedor de frutas. O engraçado é que o apelido não fazia sentido, porque João nunca vendeu uma laranja sequer. Enquanto embala caquis, ameixas e peras, ele conta como as coisas eram no passado e porque ainda resiste fazendo o que faz. Tudo começou com o pai, que também vendia frutas na rua. Desde os 7 anos, João aprendeu que, para alguns, a infância não valia de nada, senão de ajudar no trabalho. Aos 12 anos, começou a vender de fato. Como seguia o pai para cima e para baixo, ele não teve tempo de estudar ou se especializar em alguma área. A vontade era ganhar a vida com as frutas. Para surpresa de muitos, a aposta que o pai fez nele deu certo. “Comecei na Rua Dom Aquino, quando tinha um cinema, perto das Americanas. A prefeitura era na Calógeras com Afonso Pena. Eu ficava bem na frente do café que tinha. A minha infância foi trabalhando, não tive infância, não tive estudo. Naquela época, meu pai não tinha condições de dar estudo pra gente”. A rotina era um mapa de cansaço. Morador das Moreninhas desde 1973, ele atravessava a cidade até a região da Cidade Universitária para pegar o ônibus que o levaria ao Centro. De lá, o destino era a "Feira do Sapo", que acontecia no Mercadão Municipal, quando o Ceasa ainda não existia. João tomou gosto pela coisa e, assim que saiu do serviço militar, ganhou do pai um carro para trabalhar. Isso foi a virada de jogo, que veio em 1981. Com a carteira de motorista na mão e uma Kombi velha presenteada pelo pai, João começou a levar mais mercadoria para as ruas. Lotava o veículo de melancia, de abacaxi e morango. Inclusive, esse era o carro-chefe. Chegou a viajar até Pouso Alegre, em Minas Gerais, para buscar a mercadoria que a cidade ainda não conhecia bem. “Vendia a R$ 1,50, e saía tudinho. Mas dava muito trabalho nessas viagens, aí parei”. Na era de ouro do comércio ambulante, João chegava a fazer dois salários mínimos por dia. "Era muito dinheiro. O valor eu investi em casa. Construí tudo com a fruta. Hoje, eu não conseguiria". Atualmente, o movimento na Afonso Pena é mais rápido e menos lucrativo. Os sacolões e supermercados tomaram o espaço que antes era das frutarias na rua mesmo. Mesmo assim, João permanece lá, vendendo ameixas, pêssegos, uvas, morangos e goiabas. A aposta que fez anos atrás em frutas leves deu resultado. João viu a cidade mudar, enfrentou o período em que a fiscalização levava a mercadoria e o prejuízo era sem volta. “Naquela época, chamei um monte de gente para vender fruta, falei que dava dinheiro e a molecada não acreditou, tinha vergonha de empurrar carrinho na rua. Eu não, todo dia ia ganhar meu dinheiro. O mercado não vendia fruta nem verdura, isso era na rua. Buscamos na roça e vendíamos e eles entregavam no mercadão. Hoje vende de tudo. Nem sacolão não tinha, era frutaria de frutas e verduras”.