Com doses generosas de autoestima e coragem para ser quem sempre quis, a técnica de enfermagem Leonice Conceição de Melo, a Léo, de 59 anos, transformou o próprio cabelo em símbolo de liberdade. Negra, de cabelo crespo, ela cresceu em um tempo em que “nada podia” e em que o racismo era escancarado. Na infância e adolescência, as ofensas eram diretas, dolorosas e constantes. “Era chamada de preta com tom ofensivo, de nojenta. Era daí para baixo”, lembra. Por muito tempo, a profissional de enfermagem aprendeu que precisava se esconder e não chamar atenção. Mas tudo mudou já na vida adulta, quando começou a se enxergar com outros olhos e a se permitir. O processo de libertação começou depois de um episódio de racismo no antigo trabalho, que a levou a buscar apoio no movimento negro. Foi ali que Léo passou a se reconhecer nas outras mulheres negras, nas roupas coloridas, nos cabelos vibrantes, nas estéticas que celebravam identidade e pertencimento. “Eu descobri que era linda, que eu podia”, conta. A partir daí vieram as tranças, as cores e a mudança de estilo para uma estética cheia de personalidade. O desejo de raspar a cabeça também ganhou força, inspirado em mulheres negras americanas e modelos que via na televisão. Durante cerca de dois anos, Léo assumiu o visual careca por escolha própria, enfrentando olhares atravessados, comentários maldosos e perguntas invasivas. Mesmo assim, ela se manteve firme com o visual que a fazia feliz e foi além. Teve cabelo verde, vermelho, rosa, amarelo, azul e até um loiro platinado com patinhas desenhadas. “Tive cabelo de todas as cores do arco-íris e amava cada vez que trocava”, revela. Nesse período, Léo conta que precisou lidar com olhares, comentários e o preconceito. Ainda assim, ela seguiu. No ambiente de trabalho, na área da saúde, chegou a ser a única com cabelo colorido, mas também foi ali que percebeu o impacto positivo da própria presença. Técnica de enfermagem, Léo diz que as cores viraram também ferramenta de cuidado. Pacientes comentam que se sentem melhor só de vê-la chegar. “Já ouvi várias vezes pacientes dizerem que até a dor ia embora quando me viam chegar toda colorida. percebi que meu visual levava alegria para as pessoas’”, conta. Hoje, o cabelo está natural, crescendo novamente, inspirado em outra colega negra. Mas a decisão segue sendo dela. “O tempo dirá”, responde quando perguntam se as cores vão voltar. Certo mesmo é que, depois de enfrentar o racismo desde cedo, Léo escolheu existir do jeito que quiser, e ao fazer isso, acabou iluminando o caminho de muita gente ao redor. Acompanhe o Lado B no Instagram @ladobcgoficial , Facebook e Twitter . Tem pauta para sugerir? Mande nas redes sociais ou no Direto das Ruas através do WhatsApp (67) 99669-9563 (chame aqui) . Receba as principais notícias do Estado pelo Whats. Clique aqui para entrar na lista VIP do Campo Grande News .