Depois de 10 anos da primeira viagem de moto com a esposa para o Chile e as cordilheiras dos Andes, José Lory Salgado Filho, de 73 anos e os filhos levaram a memória dela ao mesmo lugar. Suzana Barbosa Salgado, de 63 anos, faleceu em outubro de 2022. Como homenagem eles resolveram subir na moto e partir para o país em uma expedição que durou 18 dias. A morte inesperada foi um baque tremendo para ele, que viu a companheira de vida reclamar de dor no braço e 2h depois ter partido. O infarto fulminante arrancou a família do lugar. A viagem foi uma forma de agradecer o tempo vivido juntos e oferecer aos filhos o cenário que Suzana viu ao lado do marido em 2016. Ao todo, 7 pessoas participaram da jornada, que também passou pelo Paraguai e Argentina. O casal sempre viajou de moto e visitou quase toda a América do Sul: Paraguai, Chile, Argentina e Bolívia, e um trecho do Uruguai. “Tínhamos 45 anos de casados, nossa juventude sempre foi isso. Ela era uma companheira que gostava porque, para viajar de moto, tem que ter uma paixão grande e estar disposto a passar frio, calor, chuva e o risco da estrada. Ela pilotava, mas gostava mais de ir na garupa, curtindo a vista, até dormia”. Desta vez, ele não segurou as lágrimas ao chegar ao mesmo local onde esteve com a esposa há 10 anos, na Mano del Desierto, no Chile. “Foi uma viagem com os filhos e uma homenagem que nós pensamos fazer para ela. Quando chegamos em Antofagasta, no monumento, me emocionei, saí um pouco da turma e fiz uma oração, agradeci a bênção de ter ido com a minha esposa e companheira de vida e depois com os meus filhos. Tiraram foto disso sem eu saber”. Lory, como é conhecido, comenta que passou a virada de 2025 para 2026 fora da zona de conforto. A família curtiu o Natal e o Ano Novo na estrada. A primeira data na Argentina e a segunda no Chile. O objetivo era chegar ao Oceano Pacífico. Rodar pelo Chile, ir a Santiago, depois retornar para a Argentina pelos Caracoles Chilenos; visitar Mendoza, na Argentina, entrar no Brasil por Uruguaiana, no Rio Grande do Sul, e voltar para Campo Grande rodando pela BR-101. "No Chile se roda por vários km beirando o Oceano Pacífico, uma paisagem muito linda." O motoqueiro conta que tem 3 filhos, duas meninas e um menino, e que a mais nova se apaixonou pelas motos de repente. Para surpresa dele, o filho sequer tinha uma moto de viagem, mas fez questão de comprar para acompanhar a família na aventura. “Depois que minha esposa faleceu, minha filha mais nova passou a ser minha companheira de bate-volta, tomar café e almoçar nas redondezas. Estamos sempre viajando. Ela foi pegando o gosto. Estávamos na casa do meu filho e a minha nora disse que a gente podia fazer uma viagem pro Chile de novo. Eu topei. Meu filho tava sem moto e foi comprar pra ir. Se virou. A minha filha mais velha foi na minha garupa. Além da gente, foi um casal de amigos”. A paixão por motos sempre esteve na vida de Lory, que ainda na infância não largava elas. Natural de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, ele saiu do estado e chegou ao então Mato Grosso em uma. O ano era 1976. Suzana já tinha moto quando conheceu o marido, mas de pequeno porte. “Nós tínhamos uma amizade muito grande e uma cumplicidade e companheirismo. Éramos muito unidos e somos ainda. Ela nunca deixou de me acompanhar em nada das minhas loucuras. Uma dessas viagens que me marcou foi quando amanheceu frio e chovendo, íamos entrar na Argentina. Estava arrumando as coisas na moto e olhei pra ela esperando que ela falasse para gente esperar mais antes de pegar estrada. Quando ela viu que eu estava olhando, deu um sorrisinho e disse: bora que a Argentina é logo ali. Isso me marcou muito”. Depois da aventura, a família já pensa na próxima, dessa vez, está em dúvida entre o Peru e a Patagônia. Lory ressalta que, por hora, apenas ele mantém o voto no Peru, mas o resto quer conhecer os cenários chilenos e argentinos de um outro ângulo. “Já estamos trabalhando para janeiro do ano que vem. Eu queria levar eles pro Peru, aí olharam o mapa e falaram que teria que passar pela cordilheira de novo, não queriam. O Peru tem muita beleza natural. Patagônia que está ganhando”. Mesmo com todas as alegrias, há 4 anos, Lory não esquece a dor que Suzana Barbosa sentiu no braço e como isso a levou embora tão rápido. O que eles não sabiam era que o sintoma não era decorrente da mamografia que ela tinha feito, mas de um infarto agressivo. “Estávamos em casa comendo um churrasquinho quando ela começou a sentir uma dor. De repente, fomos para o hospital e duas horas depois ela já estava morta. Foi um infarto fulminante. A gente leva um baque, foi uma morte repentina, ela não tinha problema de coração. Depois da covid, o médico pediu exames pra ver se tinha ficado alguma sequela e estava tudo bem. Seis meses depois isso. Foi tudo muito rápido”. Antes de morar por aqui, o casal tinha um comércio no município de Nova Alvorada do Sul: um posto de gasolina conhecido como Posto Gauchão, um restaurante, um supermercado e uma loja. Suzana auxiliava na administração. Ela cursou Direito, mas não chegou a se formar.