Impulsionando os investimentos da indústria de etanol em Mato Grosso do Sul, a companhia gaúcha Oleoplan (Óleos Vegetais Planalto) anunciou neste início de ano a construção de uma usina de biodiesel, em Dourados, a partir de óleo vegetal e outras matérias-primas. O projeto faz parte de um ambicioso plano de expansão no País, da ordem de R$ 802 milhões, comunicado à CVM (Comissão de Valores Mobiliários) em 2 de janeiro. A empresa não detalha no documento o valor exato destinado ao projeto de Dourados dentro do montante anunciado, mas projeções do setor indicam cerca de R$ 250 milhões para essa usina em solo sul-mato-grossense. O programa conta com a emissão inicial de debêntures no valor de R$ 200 milhões para dar início ao ciclo de crescimento planejado no País. O montante representa 24,94% das necessidades financeiras para os projetos. Os investimentos da Usina Oleoplan MS, atualmente em fase de estudo, devem começar em julho de 2027, segundo o comunicado da companhia. A previsão é de conclusão das obras em dezembro de 2035, embora a expectativa seja de que a unidade entre em operação já em 2029. A unidade prevê a integração de uma infraestrutura completa de processamento, armazenagem e logística, contribuindo para a expansão da capacidade produtiva da empresa no Centro-Oeste. Conforme a Oleoplan, “serão instalados equipamentos e processos industriais alinhados às melhores práticas do setor, garantindo eficiência operacional, estabilidade produtiva e atendimento às exigências regulatórias aplicáveis”. Atualmente, a Oleoplan possui cinco unidades industriais de produção de biodiesel e esmagamento de soja no país, distribuídas entre os municípios de Veranópolis (RS), Iraquara (BA), Tomé-Açu (PA), Cacoal (RO) e Lucas do Rio Verde (MT), esta última em operação desde 2025. A companhia também anunciou a expansão da capacidade da unidade de Mato Grosso, com início previsto para julho de 2026 e conclusão em dezembro de 2030. Etanol impulsiona retomada da indústria - Analistas do Banco do Brasil responsáveis pelo relatório mensal Resenha Regional, avaliam que os investimentos recentes da indústria de etanol devem contribuir de forma significativa para aumentar em 3,2% o PIB (Produto Interno Bruto) industrial do estado em 2026, revertendo a queda prevista de 0,6% no fechamento de 2025. O impulso se deve aos investimentos bilionários em biocombustíveis, especialmente na produção de etanol de milho, sob a influência de ganhos de escala e do ambiente regulatório favorável à diversificação da matriz energética e redução da dependência do diesel fóssil no transporte. A avaliação, contudo, é de que a retomada da indústria estadual deve “amortecer” a forte desaceleração prevista para o PIB total de Mato Grosso do Sul em 2026 puxado pela perda de participação do agronegócio na composição econômica do estado. Ou seja, o setor rural tende a seguir a trajetória nacional de redução de participação no PIB (Produto Interno Bruto). Mesmo assim, a retomada industrial deve ser insuficiente para impedir a forte desaceleração do crescimento do PIB sul-mato-grossense em 2026, estimado em 1,4%, após alta de 5,9% em 2025, conforme as projeções mais recentes da instituição financeira. Desaceleração do agronegócio - Pelas previsões, o PIB agropecuário, que tem peso significativo (25%) na economia sul-mato-grossense deve cair 3,8% em 2026, após fechar 2025 com expectativa de alta de 19,8%. A estimativa é de que o PIB do agronegócio nacional, que deve ter crescido 10,3% em 2025, desacelere para 1% em 2026, reduzindo o crescimento do PIB total do Brasil para 1,7%, após alta de 2,2% em 2025. A desaceleração indica uma normalização após a forte expansão do agro, puxada pela base elevada de comparação e pelo recuo na safra de dois dos principais cultivos do estado, cana-de-açúcar e milho, que concentram mais de 90% do valor da produção rural no estado, segundo analistas do BB. Avanço dos negócios - A pedido do Campo Grande News , o Monitor Energia do Futuro, iniciativa do deputado Arnaldo Jardim (Cidadania-SP), vice-presidente da FPA (Frente Parlamentar da Agropecuária) compilou os investimentos do setor no estado desde 2024, quando foi sancionada a Lei Combustível do Futuro, reforçando as políticas de fomento nessa área. Além do investimento recém-anunciado pela Oleoplan, o mapeamento inclui os R$ 2,36 bilhões da companhia Atvos, que tem o fundo árabe Mubadala entre seus principais investidores, anunciados em setembro de 2025. Os valores da Atvos destinam-se à construção de três novas unidades industriais no estado: uma indústria de biometano e duas usinas de etanol de milho. Esse investimento é parte do plano de expansão no estado desde 2024, quando investiu, inicialmente, R$ 350 milhões na construção de uma unidade produtiva de biometano em Nova Alvorada do Sul. Em abril de 2025, o estado ganhou a primeira usina de hidrogênio verde, instalada na UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), que deve atrair investimentos de R$ 2 bilhões até 2030, conforme as projeções. Outro investimento relevante é o da Raízen, que em 2024 anunciou R$ 1,3 bilhão para a construção de uma usina de etanol de segunda geração (2G) em Caarapó, no Sul do estado. Ainda em 2024, a Adecoagro anunciou R$ 225,7 milhões na expansão da Usina Ivinhema, sua primeira unidade de biogás e biometano a partir da vinhaça da cana-de-açúcar no estado, conforme o Monitor Energia do Futuro. Capacidade produtiva - Em outra frente, o analista Cristian Juliani Quiles, da consultoria FG/A, destacou o aumento da capacidade produtiva do setor sul-mato-grossense. Nesse caso, listou as últimas movimentações do mercado incluindo, entre outras, as operações de venda da Raízen para a Cocal e os novos negócios da Atvos, embora a ANP (Agência Nacional do Petróleo) indique que Mato Grosso concentre a maioria dos projetos em andamento no Centro-Oeste. “Temos expansões das unidades de Rio Brilhante e Passa Tempo, que pertenciam à Raízen e foram vendidas à Cocal. As unidades ampliaram 375 metros cúbicos por dia, ou cerca de 123 mil m³ por safra”, afirmou. A nova operação abrange a incorporação de uma capacidade instalada de 6 milhões de toneladas de cana-de-açúcar por safra, mas deve passar ainda pelo crivo do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica). Com essa aquisição, a capacidade produtiva da Cocal passa de 10,3 milhões para 16,3 milhões de toneladas por safra. O quadro de colaboradores diretos deve aumentar de 5,3 mil para 7,7 mil profissionais. “Esses números refletem a importância estratégica da operação e reforçam nosso compromisso com a eficiência produtiva, a utilização de tecnologia de ponta e o desenvolvimento de pessoas”, afirmou a empresa. Segundo Quiles, a capacidade de produção de etanol no estado responde atualmente por 31 mil m³ por dia (ou cerca de 10 milhões de m³ por safra, em plena capacidade). Desse total, 24 mil m³/dia são provenientes de plantas de cana-de-açúcar e 6.393 m³/dia (cerca de dois bilhões de litros por safra) de etanol de milho. A produção concentra-se em três unidades: duas da Inpasa, em Sidrolândia e Dourados, e uma da Neomille, em Maracaju. O analista lembrou ainda que a Atvos anunciou recentemente a intenção de investir cerca de R$ 1 bilhão em duas novas unidades de produção, em Costa Rica e Nova Alvorada do Sul. Esses projetos devem adicionar cerca de 350 mil metros cúbicos à capacidade de produção de etanol por safra. “As usinas da Raízen, que foram vendidas e tiveram a expansão anunciada, já estão com as obras concluídas e devem começar a operar a partir da safra 2026/2027. Essa é a expansão das usinas de cana. Já as unidades da Atvos ainda não têm um cronograma bem definido, mas, pelo teor das notícias divulgadas e pela forma como o CEO apresentou os projetos, a expectativa é que fiquem prontas em cerca de três safras. Assim, devem entrar em operação provavelmente na safra 2028/2029.” O analista reforça que esses investimentos têm impacto direto no PIB total do estado. “O aumento da produção de etanol contribui fortemente para o fomento do agronegócio na região, tanto pela geração de empregos nas novas usinas quanto pela expansão da produção”, afirmou.