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Sob o signo de Lilith: O Papel de Parede Amarelo, de Charlotte Perkins Gilman

Helder D’Araújo

Especial para o Jornal Opção

Para Michele Pereira, livreira

Lilith era una serpiente; fue la primera esposa de Adan. — Jorge Luis Borges

Dentro de quatro paredes, sob um teto todo seu, mora uma esfinge. Em algum lugar na parede do claustro há um papel de parede amarelo. Formas assimétricas, indiscerníveis, que fazem lembrar as pinturas de Jackson Pollock, insinuam-se como se sugerissem a inescapável charada: “Decifra-me ou te devoro”. É neste ponto, neste Aleph, que jaz uma verdade que se desvelará somente para nossa Mary Beton (personagem de “Um Teto Todo Seu”, Virginia Woolf).

Este nome dou arbitrariamente à heroína de “O Papel de Parede Amarelo”, de Charlotte Perkins Gilman (1860-1935).

Mary Beton é uma escritora que procura uma verdade, a sua verdade no mundo dominado pelos homens. Curiosamente, me faz lembrar de Raquel (“A Bolsa Amarela”, Lygia Bojunga) e suas três vontades — esta, também escritora (mirim) que se encabula com o domínio masculino.

Nossa heroína anônima vive sob um paternalismo sufocante. Seus sonhos e propósitos são calculadamente controlados pelo marido: “John não permite que eu dê nem um só passo sem suas instruções”.

Charlotte Perkins Gilman: escritora americana do norte | Foto: Reprodução

Não é permitido à silenciada, por exemplo, contar a sua versão dos fatos. A versão com que ela deve se contentar é a de que é uma doente dos nervos e que deve suspender o ofício de escrever: “Lá vem John, ele detesta que eu escreva”. Se Raquel (“A Bolsa Amarela”) fizer isso, sabemos onde vai dar.

O sinistro papel de parede como véu de revelação já está rasgado, informa nossa narradora: “Grandes pedaços de papel foram arrancados”. As formas-inscrições que se manifestam necessitam de uma leitura. Escrever e ler são atos subversivos, como se constata na Granja Solar (“A Revolução dos Bichos”, de George Orwell).

Quando o patriarca do velho testamento, John, não está, a extensão de seu olhar vigiador e punitivo não se ausenta. Sua irmã, cuidadora da casa, vigia a cunhada emparedada. E sim, nossa heroína passa por um vampirismo que mina suas forças, como no Horla, de Guy de Maupassant.

Ela está em um puerpério. Mas suas queixas são ignoradas pelo marido médico. E apesar da situação, ela toma nota: “Segredar ao papel já é um grande alívio para a minha mente”. Há de se olhar atentamente para o abismo, mesmo com o risco de ele retribuir o gesto encarando-nos de volta. “Este papel de parede olha para mim como se soubesse da terrível influência que exerce!”

John tem nome, profissão. É um alienista. Tem uma carreira. O nome da narradora não aparece e seu ofício de escritora está ameaçado. A história se repete. Compete aos homens narrarem os fatos. E se as mulheres aparecem, aparecem como frágeis. Mas nem sempre foi assim. Deus mesmo teve uma esposa poderosa, Asherah. A primeira esposa de Adão não foi Eva, mas Lilith. 

Nossa personagem está sob acabrunhamento do velho jugo patriarcal. Contudo, seus dias de espartilho determinista que a sufocam estão contados. A verdade ora rasteja, ora voa. É em sua noite mais escura que a sombra dá as caras, contradizendo totens (patriarcado) e tabus (a proibição de não escrever sua própria história), revelando um novo sagrado que na verdade é tanto antigo quanto o relato fundador: “Somos todos os dois iguais, dizia Adão, já que viemos da terra” (“Lilith”, Dicionário de símbolos). 

Que verdade iconoclasta vem a ser essa? Uma verdade que contraria o padrão: “Não há quem consiga atravessar esse padrão. Ele é asfixiante”.

Há uma metamorfose a caminho. Faz-se sentir não somente nos talhos e traços do papel esgarçado. O papel muda as cores conforme a variação da luz, seja diurna ou noturna. À princípio chamou atenção por sua visibilidade. A cor são ondas percebidas por nosso globo ocular. Não obstante, o tecido vivo (como no quadro de Dorian Gray, personagem de Oscar Wilde) emite cheiro. Dentro do padrão há formas presas que insinuam o rasgo, a libertação: “A mulher ao fundo balança… o tempo todo tenta escapar”.

No início do conto o que há são imagens disformes, mas agora, para além do padrão, há uma imagem nítida. É uma mulher. Às vezes ela foge do padrão e vagueia solta à luz do dia, mas como a mítica Lilith: “Acho que a mulher sai durante o dia. Sei que é a mesma porque está sempre rastejando”. Essa forma fantástica que se apresenta somente à escritora silenciada lembra a mulher-serpente de Michelangelo, no afresco Pecado original e expulsão do paraíso.

Mesmo que o conto sugira as alternâncias noturnas e diurnas, é à noite que Lilith alça o voo. Teme a luz? Absolutamente não.

A figura que salta de dentro do caos assimétrico, uma mulher rastejante (Lilith é serpente como também ave noturna, uma esfinge), é auxiliada pela outra que está sob a inspiração de Mania (deusa grega).

No mito narrado por homens diz-se que a mulher (como num processo de mitose celular) saiu do homem. Contudo, em nosso conto ocorre o contrário. Essa filha de Eva emancipa-se. Vem fazendo isso por todo o conto, uma vez que não deixa de exercer o seu ofício de escritora. O último ato da revelação enfim chega. A heroína funde-se ao seu lado mais antigo e primevo, Lilith. Fazendo isto, ela acerta as contas com o paternalismo que a trata “rindo de seu desconforto” (p.20), chamando-a de “tolinha” (p.21), insinuando que tem “tendência a devaneios” (p. 22) ou mesmo “fantasias tolas” (p.37), a chama de “pobrezinha!” (p. 41) e faz tudo por ela (um positivismo tóxico?), até mesmo que ela se canse e o deteste.

John não pode suportar a nova revelação, a transformação que a esposa experimentou. Ele tem uma vertigem e desmaia como a mãe de Gregor Samsa (“A Metamorfose”, Kafka). O corpo que simula um rigor mortis está obstruindo o caminho da mulher emancipada, ela passa por cima desta pedra de tropeço. Cobre-o como Lilith faz aos homens em suas visitas noturnas.

Helder D’Araújo, escritor, crítico literário e livreiro, é colaborador do Jornal Opção.

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