Um homem em início de situação de rua
Acredito que este título se justifique, e isso não por força retórica, mas pela particularidade da observação. Gosto de observar as coisas, sejam elas magníficas ou não. O insigne poeta Fernando Pessoa, em seu livro “O Guardador de Rebanhos”, diz, num dos poemas, que é preciso saber reparar as coisas. Segundo o vate português, essa observação pormenorizada proporciona um modo especial de falar das coisas. Reparando, de modo inabitual, um pássaro morto no meio da rua, o nosso poeta Gabriel Nascente versejou que “um pedaço do céu fica cego” diante fato assim.
Vi o homem deitado sobre um tapete na calçada da ilha da Avenida Goiás. Ele me passou a impressão de alguém que ainda tentava manter alguma cerimônia com o chão. Este, afinal, é terra firme. Há um porém: o chão nem sempre ensina o corpo quando a fantasia pula pela janela. Senti que a rua era a sua sustentação decorrente de sua cabeça sem ideias, sem promessas, um túnel sem luz.
Havia uma pequena mala ao seu lado, protegida por uma corrente e um cadeado: último gesto de confiança em coisas que ainda podem ser guardadas. Calçava botinas, usava cinto. Detalhes mínimos, quase invisíveis à pressa da cidade, mas que expressavam uma tentativa de permanência no mundo tal como ele o conhecia. O homem estava deitado, usava seu braço esquerdo como apoio de sua cabeça. Certamente estava num tormento mudo de alguém que vê um bicho feroz ao seu redor e sem ter o que fazer: o abandono da rua.
Não estava ali como alguém já dissolvido pela crueldade da rua. Estava sozinho, é verdade, mas ainda inteiro. O corpo não havia sido engolido por completo pelo abandono. As botinas ainda em bom estado eram vestígio de um passado recente em que ele, certamente, caminhava com destino. A mala, trancada, era sua cápsula do tempo, seu pequeno tesouro: ali, além de poucas peças de roupa (pois a mala era pequena), talvez também estavam fotografias, alguma lembrança do lugar de onde veio ou apenas a ilusão de que ainda havia algo a proteger.
As pessoas já enjauladas pelas ruas, essas que a cidade ignora com a naturalidade de quem ignora postes, árvores, não têm esses pertences. Carregam apenas as roupas do corpo, sempre bem sujas, muitas vezes rasgadas, frequentemente descalças. A rua, quando se instala por inteiro, cobra pedágio alto: primeiro leva os objetos, depois tira o peso do corpo (seja pela fome, uso de droga e/ou álcool), por fim o nome. O que sobra é uma presença sem biografia. Pelas ruas da cidade, há muitas pessoas assim. Um esquadrão de desvalidos vagando sem norte num pântano social.
O homem da Avenida Goiás me trouxe à lembrança outro homem, o qual, tempos atrás (mais precisamente em 2012), encontrei em circunstância semelhante na Praça Cívica, só que dormindo sobre um banco de cimento. Também havia ali sinais de um começo — um resto de cuidado, uma tentativa de sustentar-se antes da queda total. Meses depois, o reencontrei no Centro. Já não havia mais pertences, nem mala, nem cadeado. Apenas o corpo (e já bem magro) e a expressão de quem foi vencido por um cansaço antigo e nefasto. A rua, paciente, havia terminado o serviço. A rua é crudelíssima.
Talvez exista um instante exato em que alguém cruza essa fronteira invisível: deixa de estar na rua e passa a pertencer à rua. O homem da Avenida Goiás parecia suspenso nesse limiar, ainda agarrado a pequenos pertences. A mala com o cadeado explicitava isso. A cidade, porém, não costuma oferecer segunda chance, ela tão-somente acelera o esquecimento. E nós, apressados, seguimos passando, fingindo não ver que ali, estendido no tapete ou no banco da praça, estava alguém ainda em início, mas já perigosamente perto do fim.
Sinésio Dioliveira é jornalista, poeta e fotógrafo da natureza
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