Por que odiei amar ‘Marty Supreme’
A Academia divulgou, no dia 22 de janeiro, a lista de indicados ao Oscar deste ano. E ‘Marty Supreme’, filme protagonizado por Timothée Chalamet, entrou na disputa em nove categorias, incluindo de Melhor Ator e Melhor Filme – categorias essas que, inclusive, nosso brasileiro O Agente Secreto também concorre.
O “hype” em cima ‘Marty Supreme’ é um fato inegável, claro. E na última semana fui ao cinema para assistir à produção e confirmar a origem disso. Saí da sala xingando e reclamando. Não porque o filme é ruim. Pelo contrário: ele é excelente. E essa é a grande questão.
Junto com ‘Valor Sentimental’, filme de Joachim Trier que já nasce como obra-prima, ‘Marty Supreme’ é uma das maiores ameaças à nossa possível premiação – nossa, do Brasil – no Oscar deste ano.
O filme conta a história de Marty Mauser (Timothée Chalamet), um jogador de tênis de mesa que luta contra tudo e todos para ser um campeão. A história é inspirada na figura real de Marty Reisman, mas presumo que pouco, quase nada do que se passa na tela realmente aconteceu.
Marty – o Mauser, do filme – é um personagem criado para ser detestado, mas admirado pela determinação inesgotável. O tenista de mesa não tem escrúpulos, princípios, freios e amarras sociais: ele é capaz de tudo, até vender a própria mãe, para conseguir êxito no que quer.
O “sonho americano” é elevado à décima potência ao longo das duras horas e meia de filme. A repulsa de Marty de ser enquadrado como um simples trabalhador braçal e sua vontade irrefreável de chegar ao pódios do tênis de mesa o levam à situações que vão desde levar raquetadas na bunda por uma carona para o Japão, onde quer disputar um campeonato, até trocar tiros com um desconhecido por um cachorro que prometeu cuidar – por dinheiro – mas abandonou.
E a malandragem, aqui, não é restrita a Marty. Cada personagem do filme usa da astúcia e a honestidade do outro para tentar passá-lo para trás, mesmo que as intenções finais sejam boas. É o caso de Rebecca (Fran Drescher), mãe de Marty, que mente estar doente só para poder ver o filho, ou Rachel (Odessa A’zion), a amante do rapaz, que finge ter sido agredida pelo marido só para ficar na companhia do tenista.
Para “sofrer” menos, o espectador pode adotar outro ponto de vista: todos fazem o que precisam fazer. Vencer é vencer, não importa a que custo.
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A direção para essa história não poderia ser mais adequada. O filme tem a marca registrada dos irmãos Safdie (apesar de ser dirigido só por um deles, Josh). É caótico, barulhento, frenético e te dá uma crise de ansiedade a cada 10 minutos de tela. É um filme para não ser tempo para pensar e respirar. Tudo acontece ao mesmo tempo, situação seguida de outra, todos gritando e correndo ao mesmo tempo. Não existe paz no enredo. Zero.
E esse é, odeio admitir, o grande trunfo do filme. O personagem de Chalamet é deliciosamente detestável, e o ator nova-iorquino entrega uma atuação digna de aplausos eufóricos. Uma prova disso é que, já na metade do filme, você se pega torcendo para que Marty se dê mal, ou pelo menos que o karma aja diante de todo o caos que ele impõe à vida de quem o cerca.
Marty Supreme e sua luta inglória irritam profundamente. O filme te dar dor de cabeça. E do caos e da bagunça, nasce um filme inacreditavelmente bom.
Minha torcida na premiação deste ano é indubitável e inabalavelmente para ‘O Agente Secreto’ e Wagner Moura. Mas se Timothée e Safdie estiverem com um pingo da determinação para vencer que tem Marty Supreme, é melhor termos cuidado.
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