“É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado à margem de nós mesmos”
Vivemos um tempo em que a travessia não se limita apenas à vida na Terra, a passos de derrubar Concílios e bulas medievais da seara religiosa tradicional.
Depois de Galileu, as notícias da semana passada pelos telejornais anunciaram descobertas astronômicas recentes em imagens de um exoplaneta a menos de 145 anos-luz de distância da Terra, o mais próximo dentre outros anteriores, com temperaturas só um pouco mais baixas que as da Groenlândia, o qual esta situado na chamada zona habitável de sua estrela, abrindo possibilidades futuras de exploração e, talvez, colonização humana (The Guardian, 2026). Esses achados reavivam debates filosóficos e espirituais sobre a pluralidade de mundos, discutida desde Epicuro e Giordano Bruno até o espiritismo, que considera a vida como universal. Embora ainda possibilidades, elas evocam um ponto essencial: nossa responsabilidade ética e prática começa aqui, no planeta que habitamos, e pequenas ações conscientes podem ter efeitos multiplicadores no mundo e na humanidade.
A frase popularmente atribuída a Fernando Pessoa — “É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos” — sintetiza essa necessidade de transformação. Ainda que não seja uma citação literal de suas obras publicadas, ela reflete o espírito de seus textos sobre mudança, ruptura e autoconhecimento. Em O Livro do Desassossego, Pessoa advertia sobre o risco de permanecer preso a padrões repetitivos: “Tudo me aborrece: exceto a mudança. Tenho medo de permanecer sempre o mesmo” (Pessoa, fragmento 2085, heterônimo Bernardo Soares). A travessia, portanto, é simultaneamente interior e exterior: é um ato de coragem individual que se projeta na sociedade e na história.
O início do século XXI demonstra que estamos em um momento de transição profunda. A ordem global, consolidada após a Segunda Guerra Mundial e durante a Guerra Fria, mostra sinais de fragilidade. Emergência de novos polos de poder, conflitos regionais, desigualdades sociais e a crise climática representam tensões inéditas. Se permanecermos passivos, estaremos à margem de nós mesmos e do futuro coletivo.
Filósofos clássicos como Hegel lembram que a história progride através de contradições internas que impulsionam transformações. Quando as forças produtivas e tecnológicas de um sistema atingem seu limite, surgem crises que podem gerar ruptura ou renovação. No mundo contemporâneo, a intensificação do consumo, da produção e da exploração tecnológica e ambiental cria pressões sobre instituições, ecossistemas e sociedades. Se não forem abordadas com consciência ética e ação deliberada, essas tensões podem produzir conflitos graves; mas, interpretadas como sinais de travessia, também oferecem oportunidades de reorganização mais equilibrada e justa da civilização.
Psicologicamente, a travessia exige enfrentar nossos próprios limites e padrões inconscientes, conforme ensina Jung, e transformá-los em aprendizado e ação. Essa mudança não se dá apenas na reflexão; ela exige gestos concretos no cotidiano. Pessoas comuns, mesmo sem grandes recursos financeiros, podem contribuir transformando seu entorno: separando resíduos, economizando água e energia, ajudando vizinhos e comunidades próximas, participando de ações voluntárias ou educativas, apoiando causas sociais e ambientais ou compartilhando informações confiáveis nas redes. Pequenas ações repetidas diariamente se multiplicam e geram impacto real e concreto.
Espiritualmente, a travessia é também evolução da consciência. Obras psicografadas por Divaldo Franco, como as mensagens de Joana de Ângelis e Emmanuel, lembram que desafios e sofrimentos são oportunidades de crescimento, mas apenas quando transformados em ações concretas de amor, serviço e responsabilidade social. A travessia, assim, não é uma mera metáfora: é prática, ética e consciente, ligando reflexão, escolha e transformação da realidade coletiva.
Em última análise, o espírito da frase atribuída a Pessoa nos lembra que o tempo da travessia é agora. Permanecer à margem de si mesmo significa negligenciar tanto a própria evolução quanto o impacto positivo que cada indivíduo pode exercer no mundo. Ousar atravessar é agir conscientemente, transformando a própria vida e a sociedade. Pequenas ações diárias, mesmo simples e acessíveis, podem efetivamente construir um mundo mais justo, equilibrado e sustentável — seja no plano terrestre ou, futuramente, em horizontes cósmicos.
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Referências jornalísticas e acadêmicas gerais:
• Mundo Educação. “Nova Ordem Mundial.” UOL. link
• Instituto Humanitas Unisinos. “Guerras, Desastres e Tecnologias: 2025 e a Nova Ordem Mundial.” link
• The Guardian. “A Potentially Habitable New Planet Discovered 146 Light Years Away.” 2026. link
• Pessoa, Fernando. O Livro do Desassossego. Heterônimo Bernardo Soares, fragmento 2085.
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