Aaceleração do capitalismo e a consequente ampliação da concentração do poder econômico e tecnológico têm se mostrado devastadoras para a vida em sociedade, que deveria estar alicerçada no bem-estar, se não de todos, ao menos de muitos. Fenômeno ainda mais evidente quando temos em conta o segmento dos produtos e serviços digitais e dos intangíveis em geral desde patentes, passando pelas marcas e direitos autorais. Aqui o termo “big tech” explica bem a concentração do poder tecnológico traduzido em financeiro e político, e mais, sem uma perspectiva de mudança, uma vez que mais lucro implica investimentos em novas soluções valiosas e reprodutíveis à escala global, em um ciclo imantado de “dinheiro chama dinheiro”, sem precedentes. E as consequências para aqueles que não se beneficiam das benesses da riqueza e do poder? Mais evidente nos últimos anos, ainda como rescaldo da pandemia, a condição emocional da população tem se deteriorado dia a dia. Pouco divulgada pelas pesquisas médicas, sociais e psicológicas, ainda assim, percebida como uma avalanche no cotidiano: burnout, crise de ansiedade, síndrome do pânico, até condições psíquicas mais graves como esquizofrenia e outras já não são raras. Além das guerras, conflitos e invasões em várias partes do mundo, que trazem dor, sofrimento e morte, proliferam brigas no trânsito, em restaurantes, em edifícios e condomínios, crueldades com pessoas em condição de vulnerabilidade e animais, violência policial, violência doméstica, feminicídios, assassinatos dentro de hospitais, abandono. Vários games recentemente lançados, como Tormentor, Resident Evil Requiem (RE9) ou mesmo o Phantom Blade Zero, são conhecidos como jogos e simuladores que têm como objetivo promover a violência extrema, a tortura e a morte. Ou seja, tanto na realidade nua e crua e nos simulacros gameficados, a dor está no centro. Enfim, uma mistura de individualismo beligerante e descontrole emocional, com egoísmo sádico e crime, o que revela outro patamar do “Mal-estar na cultura”, muito bem evidenciado e problematizado por Freud, em livro publicado em 1930. A diferença é que agora a emoção que fundamenta esse estado geral é sinalizadora de ressentimento, desespero e angústia e não mais de culpa e infelicidade, como no passado. Segundo informações da Billboard, revista americana de entretenimento e divulgadora de classificações de acesso e vendas nas plataformas digitais e rádio, aproximadamente 25% de todas as canções que lideram os rankings globais mais recentes têm referências explicitas ao desespero, à melancolia e à angustia. Os indicados ao Grammy neste ano são outro reflexo desse ânimo desfalecido, com designações para Billie Eilish, Olivia Dean, The Marías, Bad Bunny e outros. E o que eles têm comum? Todos partilham deste estado emocional sofrido, angustiado e depressivo. No Brasil, a sofrência se consolida como o subgênero mais ouvido e reverenciado, o que demonstra uma piora geral dos afetos, principalmente entre os jovens. Esteticamente também é notória a prevalência de signos melancólicos como cores que exaltam uma perspectiva sombria e nostálgica, a estética spleen (tédio) e tired (caracterizada pela manutenção de olheiras leves), no Brasil mais conhecida como “olhar CLT” – demonstração do cansaço como parte do cotidiano; a onda de referências Delulu (delírio) que convive agora com a Solulu (a solução é o delírio!); são uma espécie de resposta possível, ainda que concretizada no descolamento da realidade. A valorização de espaços convidativos à solidão e introspecção, cenários trágicos ou mesmo a revalorização da gravura Melancolia I, de Dürer (de 1514), em cartazes, postais e estampas de almofadas e peças de vestuário, são outros exemplos de sofrimento. Claro que essas estéticas e comportamentos pesados, depressivos e, às vezes, até trágicos, convivem com manifestações que buscam algum contraponto, como o ballet e o cottagecore, o brazilcore, o boho chic repaginado, o afrodecor, a ascensão da casa lúdica e a pose poética ou librarian core (inspirada nas vestimentas de intelectuais do passado expresso no uso de capas, blazer e bolsas-carteiro), entre outras, mas todas essas manifestações são muito mais efêmeras comparativamente à densidade e à transversalidade do zeitgeist da dor e do sofrimento sofrido, ignorado e/ou impingido que passam a ser simbolizados esteticamente. Para piorar ainda mais, as lógicas algorítmicas que funcionam na exacerbação da semelhança, uma vez que cumprem o movimento das correlações, reforçam e aniquilam qualquer signo que possa tensionar, mudar ou mesmo colocar em perspectiva outras possibilidades expressivas. Até o urso polar, mascote da Coca-Cola, outrora gracioso e brincalhão, se deprime e entra em crise existencial (propaganda da Pepsi lançada no intervalo do Super Bowl 2026, voltando ao embate das colas típico dos anos 1990), ainda que com humor e ludicidade. A partir deste breve percurso analítico acerca dos signos do nosso tempo é possível compreender que a impossibilidade de vislumbrar o futuro, as incertezas quanto a dias melhores e o impedimento do sonho são insuportáveis. Parece que o único caminho segue sendo a construção do comum, da partilha e da cultura da paz, não para pouquíssimos soberanos, mas para muitos. (*) Clotilde Perez, professora e diretora da Escola de Comunicações e Artes da USP