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Elitização e salário baixo levam culpa por filas em cidade lotada de médicos

Há 5,2 médicos para cada mil habitantes em Campo Grande, um bom índice que até justificou a negativa para dois novos cursos de Medicina na Capital, mas não reflete em atendimento rápido para todos. A certeza é de espera longa em prontos socorros e até na consulta com especialistas por planos de saúde. Representante dos profissionais da Medicina em Mato Grosso do Sul, o Sinmed (Sindicato dos Médicos de Mato Grosso do Sul) reconhece a realidade nas unidades públicas e no acesso pago pela saúde suplementar. O presidente, Marcelo Santana Silveira, cita um conjunto de fatores que explicam o descompasso e não incluem a necessidade de formar mais médicos. Ele destaca primeiro a elitização e a segregação que atingem a categoria por dentro, e não é exclusividade de Campo Grande. “A gente está pegando a Medicina e dividindo em castas, de forma que os médicos mais gabaritados estão fazendo plantões nos hospitais privados e atendendo em consultório particular. Médicos famosos, bem estruturados, os mais bem formados, migram para a iniciativa privada. É gravíssimo”, começa. Esse movimento é nacional e começou em 1993, após a extinção do Inamps (Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social) e a criação do SUS (Sistema Único de Saúde), na visão do sindicalista. “Antes, pelo menos, havia uma remuneração mais adequada para o médico que atendia no sistema público e ele podia mesclar esse atendimento com o privado. Se o SUS melhorar a remuneração e as condições de trabalho, vira o melhor sistema do mundo. Só que hoje ainda não é”, continua. Planos - Responsáveis por fatia crescente do atendimento atualmente, os planos de saúde não são bem vistos como alternativa viável por muitos médicos porque o valor da consulta repassado pelas operadoras não sustenta os custos da atividade e não deixa margem de lucro. O representante do Sinmed cita uma opção em Campo Grande que paga R$ 80 por consulta realizada, às vezes com atraso no repasse, e que não remunera pelo retorno do paciente. “Acaba inviabilizando a operação. Os custos de ter um consultório hoje são muito altos. Se o médico não tem um, como é o caso da maioria, ele aluga. Daí paga luz, água, funcionário, faxineiro. Não é um negócio simples, tem que seguir regras da Vigilância Sanitária”, explica. O resultado é que a categoria mira salários melhores e, assim, busca se consolidar profissionalmente atendendo por consulta particular, cobrando de R$ 500 até R$ 1,2 mil de cada paciente na Capital, conforme estima o Sinmed. Assim, é comum que usuários dos planos de saúde esperem cerca de três meses para ser atendidos em algumas especialidades. Isso ocorre entre as que têm um menor número de profissionais disponíveis e têm uma formação mais difícil de acessar, como neuropediatria, endocrinologia e reumatologia, acrescenta o presidente do sindicato. Unidades públicas - O mesmo acontece na busca por especialistas na rede pública. Desde 2024, pelo menos, o MPMS (Ministério Público Estadual) abre processos para apurar e cobrar o Poder Público sobre a demora no atendimento e fila que leva à espera de mais de um ano por uma consulta com ortopedista e psiquiatra, por exemplo. Alguns casos foram levados à Justiça e resultaram em acordos prevendo medidas para desafogar as filas. A espera por um leito hospitalar também é grande, principalmente em estações frias e períodos festivos em Campo Grande. Para Marcelo, que já trabalhou no sistema de regulação do Município, o problema é que a população cresceu e o número de vagas disponíveis na rede pública não acompanhou a demanda.  Ele critica o fato de a prefeitura ainda não ter um hospital municipal para promover um acréscimo de vagas e se amparar atualmente em hospitais onde não tem controle direto, como a Santa Casa (gerida por associação privada), o hospital universitário (público, mas gerido por empresa privada) e o Hospital Regional (público, mas nas mãos de fundação do governo estadual). O sindicalista aponta que isso contribui para a crise de leitos se repetir ano após ano. Lei da oferta e da procura - Com o mercado cada vez mais restrito, há muitos médicos recém-formados desempregados e uma fila de interessados em trabalhar em UPA (Unidade de Pronto Atendimento) e CRS (Centros Regionais de Saúde) por não terem alternativa, diz Marcelo. Ele afirma que o não reajuste do salário dos servidores e contratados, além da não implantação do plano de cargos e carreiras no Município e das condições de trabalho ruins, afastam os mais experientes de assumir cargos e acabam provocando muita rotatividade. Como médico nefrologista, o próprio Marcelo já fez plantões nessas unidades. “Antigamente, a gente até recebia ligações pedindo para ir para outra unidade que estava lotada e precisava mais de plantonista. Hoje, todas as unidades estão saturadas, não tem como ter essa movimentação. Com a lei da oferta e procura por emprego, os plantões estão se tornando escassos e os médicos estão fazendo um número muito pequeno de plantões”, analisa. População também tem culpa - O uso dos prontos socorros por quem não precisa é outro fator que entra na conta, na opinião do representante do Sinmed. Boa parte dos pacientes poderiam procurar uma USF (Unidade Básica da Família) para serem atendidos ou tentar agendar uma consulta na mesma semana em vez de inflar a fila das UPAs, CRSs e unidades de pronto atendimento dos planos de saúde quando tem sintomas leves. “O pronto socorro é um lugar onde você vai se tiver com sintomas de infarto, um derrame. Quando é uma dor de garganta, início de uma gripe ou até uma infecção urinária, você não tem que ir para lá”, diz Marcelo. Pode piorar - O presidente do Sinmed afirma que a telemedicina, que permite médicos atenderem pacientes a distância, e a expansão de serviços de saúde no interior do Estado têm melhorado a situação e oferecido uma perspectiva menos pior, porém, muitas coisas precisam avançar junto.  A industrialização e a integração da Capital à Rota Bioceânica poderá piorar o que está ruim, ele avalia. “Sem um projeto de ampliação dos hospitais da rede pública e privada, poderemos sofrer muito mais, porque nossa população vai crescer. Mato Grosso do Sul está em franco desenvolvimento e precisamos olhar para a Saúde”, finaliza. O outro lado - A reportagem questionou a Sesau (Secretaria Municipal de Saúde) sobre o que têm feito para reduzir a espera nas unidades que atendem pelo SUS na Capital e quais medidas ainda pretende tomar. Não houve retorno até a publicação da matéria. O Campo Grande News também procurou a Abrange (Associação Brasileira de Planos de Saúde) e perguntou sobre os repasses feitos aos médicos e se existe alguma revisão em vista, mas a entidade não quis se manifestar.

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