Costumes lá da roça…
Fernando Cupertino
A tarde já ia adiantada, quando lá longe, na porteira do pasto da frente, um cavaleiro apareceu montado numa mula castanha.
Aproximou-se no trote preguiçoso do animal até à casa.
— Ô de casa! — falou o recém-chegado com um vozeirão bem forte.
— Vamos apear, compadre Onofre! Coisa boa ver o senhor aqui em casa — disse logo Dona Escolástica, mulher do Coronel Atanagildo. E emendou:
— Tatá vem logo. Foi só ali no açude ver um serviço, mas já-já está de volta.
— Muito obrigado, cumade. Tô mesmo carecendo d’um golinho de café prá mode alegrá o spritu, respondeu o compadre.
— Pois então se acomode aqui na varanda porque acabei de passar um cafezinho inda agorinha.
Veio logo o café, devidamente guarnecido de umas petas e broas vistosas e de cheiro bom. Afinal, café corajoso, aquele que enfrenta o freguês com a cara e com a coragem, numa solitária xícara sem nada para distrair os dentes, não é coisa que se apresente. Bom mesmo é o café medroso, que se faz acompanhar de umas quantas quitandas para garantir a coisa.
— Bastião! — gritou Dona Escolástica debruçando-se ligeiramente por sobre o parapeito da varanda – vá dizer ao coronel que o compadre Onofre está de visita aqui em casa.
Transcorrido pouco tempo, chega o coronel Atanagildo, enfatiotado num terno de linho bege e chapéu panamá de abas largas, com o qual se abanava para espantar o calor pesado do mês de setembro. O coronel, de antiga família da região, era um homenzarrão de seus cinquenta e poucos anos e gozava da fama de ser extremamente avarento. Não comia banana para não jogar a casca fora, como se dizia à boca miúda.
— Compadre Onofre, como é que vai essa bizarria? Há quanto tempo o amigo não dá as caras por cá!
— Como Deus é servido, cumpade. Saí hoje cedo mode campeá um boieco que sumiu lá de casa, mas num encontrei nem sombra do infeliz… então arresorvi passá por cá mode proseá um pôco com vosmecê.
— Fez muito bem, compadre! Ô mulher, traga aí uma limonada bem fresca porque o calor está demais! Pouco açúcar, viu? O açúcar está pela hora da morte, não é mesmo, compadre?
E mudando o rumo da conversa, acrescentou: — parece que vem uma chuvinha boa por aí…
Começaram, então, uma prosa animada que passou em revista muitos assuntos de interesse comum: as notícias da chegada de uma estrada de rodagem, prometida há muito pelo governo; a carestia, que exigia cada vez mais dinheiro para se comprar cada vez menos produtos para a lida da roça; notícias dos meninos que estavam estudando na Capital desde o ano anterior e assim por diante.
Entretidos, nem se deram conta de que a hora avançara, quando uma trovoada forte, acompanhada de uma ventania dos diabos anunciando a chegada iminente de um pé d’água daqueles, chamou a atenção dos dois e interrompeu a conversa…
— Cumpade, acho que vô chegano, antes que esse aguaceiro desabe, disse Onofre ao coronel.
— De jeito nenhum, compadre Onofre! Veja como está relampeando lá para os seus lados… a chuva já vem aí bem perto e ainda mais com essa ventania… — e, mesmo sem esperar pela resposta, ordenou à mulher que preparasse o pouso para o compadre ali passar a noite.
O que não tem remédio, remediado está. Como voltar para casa enfrentando a tempestade que já começava a cair e, ainda por cima, correndo o risco de fazer uma desfeita ao compadre dono da casa?
Assim, Onofre aquiesceu e conformou-se em ter que passar a noite ali e seguir viagem no dia seguinte.
— Agradeço muito pelo pouso, cumpade, mas não quero dá trabaio…
— Trabalho nenhum, homem de Deus. Vosmecê está em sua casa!
A noite desceu rapidamente, as janelas foram fechadas por causa da chuva e do vento, e os lampiões a querosene acesos. Pouco a pouco, os assuntos da prosa foram minguando e Onofre já deixava escapar aqui e ali uns bocejos… afinal, a jornada havia sido longa e cansativa.
Ao reparar que o hóspede apresentava sinais de cansaço, o coronel virou-se para a mulher e disse: — Traga lá a bacia e a água para o compadre lavar os pés antes de ir para a cama, mulher.
Onofre, mais que depressa, esboçando um ar meio ingênuo e apatetado, logo perguntou candidamente: — Cumpade, será que num faiz mar lavá os pé com a barriga vazia???
Fernando Cupertino, compositor, médico e escritor, é colaborador do Jornal Opção.
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