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Geração Z lidera intenção de compra de imóveis em Goiás; preços em Goiânia sobem 13,4%

Com 56% dos jovens demonstrando interesse em adquirir um imóvel nos próximos meses, índice superior à média nacional de 50%, a Geração Z (nascidos entre o final dos anos 1990 e início de 2010) surge como a principal força propulsora do mercado imobiliário goiano, impulsionando por vendas recordes em Goiânia, onde o preço do metro quadrado disparou 13,4% em 2025, alcançando a média de R$ 10.531.

No entanto, por trás dos números, é possível observar jovens altamente informados e com forte desejo de construir patrimônio, mas precisando driblar a informalidade no trabalho, a dificuldade de aprovação de crédito e um mercado que, apesar de aquecido, testa diariamente a capacidade de adaptação dessa geração a um novo modelo de moradia, mais compacto, tecnológico e estrategicamente localizado.

Ao contrário do que alguns analistas previam sobre uma geração que trocaria a casa própria pelo aluguel e pela mobilidade constante, os dados mais recentes da Brain Inteligência Imobiliária apontam na direção oposta. A intenção de compra entre a Geração Z saltou de 48% em meados de 2023 para os atuais 56%.

Rômulo Tiago Santos | Foto: Reprodução

O diretor de pesquisas e estatística da Associação das Empresas do Mercado Imobiliário de Goiás (Ademi-GO), Credson Batista, observa que esse movimento enterra de vez a tese de que os jovens abandonariam o sonho da propriedade. Segundo ele, muitos continuam investindo no setor, seja por meio de imóveis mais compactos ou utilizando programas habitacionais como o Minha Casa Minha Vida, que oferece juros subsidiados.

Rômulo Tiago Santos, CEO da Mais que Imóveis, confirma a mudança de perfil com números da sua carteira de clientes. “Nunca se vendeu tanto para jovens como agora. 60% do nosso grande volume de negociações está entre 18 e 30 anos”, revela, indicando que o mercado está sendo cada vez mais impulsionado por profissionais em início e meio de carreira.

O dilema do financiamento

Apesar do entusiasmo na procura, o caminho até a chave na mão tem se mostrado mais tortuoso para essa geração. O grande gargalo, apontado por especialistas e corroborado por compradores, está na incompatibilidade entre o novo mundo do trabalho, marcado pela informalidade e múltiplas fontes de renda, e o sistema financeiro tradicional, que ainda exige vínculos formais e previsibilidade.

Augusto Narikawa, mestre e doutorando em Educação, Linguagem e Tecnologias, oferece uma visão estrutural para o fenômeno. “Quando analisamos a capacidade de acumulação patrimonial, especialmente no que diz respeito à aquisição de imóveis, há indícios de que a Geração Z enfrenta um ambiente mais desafiador do que o vivenciado por gerações anteriores na mesma etapa da vida”, analisa.

Ele aponta que não se trata de incompetência financeira, mas de uma combinação de fatores: salários iniciais mais baixos comparados ao custo da moradia, valorização explosiva dos imóveis nos centros urbanos e a exigência de qualificação formal cada vez mais elevada.

Augusto Narikawa | Foto: Arquivo pessoal

Essa análise se embasa na prática diária das imobiliárias. Rômulo Tiago Santos explica que a nova configuração profissional dos jovens cria um entrave técnico na hora de solicitar o crédito. “Os jovens têm rendas variáveis, pouca formalização e histórico financeiro curto, o que dificulta bastante a aprovação de crédito”, detalha.

Para ele, a forte inclinação da geração ao empreendedorismo e às mídias digitais, embora positiva sob vários aspectos, acaba se tornando um obstáculo diante da lente conservadora dos bancos.

Narikawa complementa essa visão com uma análise do sistema: “O sistema de crédito foi pensado para quem tem renda estável e vínculo contínuo. Hoje, muitos jovens trabalham como pessoa jurídica, em plataformas ou em contratos mais flexíveis. Para os bancos, menor previsibilidade significa maior risco”.

Investimento, moradia ou ambos?

A pesquisa da Ademi-GO 2025 revela que a compra de um imóvel raramente se resume a uma única motivação. Existe uma clara divisão entre o imóvel como moradia e o imóvel como ativo financeiro, e muitas vezes esses dois mundos se cruzam.

Patrícia Garrote, diretora de incorporação da Dinâmica Incorporadora, observa esse comportamento dual no mercado. Ela destaca que, em empreendimentos de médio e alto padrão localizados em bairros centrais como Pedro Ludovico, Jardim América e Parque Amazônia, o jovem aparece tanto como investidor capitalizado quanto como morador que busca financiamento.

Patrícia Garrote | Foto: Reprodução

Por outro lado, em projetos mais econômicos, como os no Setor Residencial Eldorado, o foco é majoritariamente a primeira moradia. 

Ricardo Cruz, gerente comercial da Terral Incorporadora, aprofunda essa distinção ao segmentar por metragem. Segundo ele, nos estúdios de 29 a 36 metros quadrados, 90% dos compradores adquirem para investimento, focados em locação por temporada e alta rotatividade.

Já em apartamentos de dois quartos acima de 50 metros quadrados, o perfil se diversifica entre solteiros que moram e casais sem filhos, sempre valorizando espaços com um home office.

O fenômeno da mobilidade e a redefinição de “estabilidade”

Um dos traços mais marcantes da Geração Z, e que influencia diretamente suas escolhas imobiliárias, é a relação fluida com o conceito de “pertencimento” a um lugar. A ideia de fixar raízes em um único imóvel por toda a vida perde espaço para uma lógica mais funcional e dinâmica.

Narikawa explica essa mudança de paradigma: “No passado, viver a vida inteira em um único imóvel era um ideal de estabilidade. Hoje, a lógica é diferente. Se o emprego muda de cidade ou se o deslocamento diário compromete qualidade de vida, a mudança de residência passa a ser vista como algo natural. O tempo se tornou um ativo valioso”.

Essa percepção é compartilhada por Ricardo Cruz ao descrever o perfil do cliente da Terral. “É um outro fenômeno da mobilidade: a pessoa não quer ficar presa a um lugar ou cidade. Ela busca comprar um imóvel para morar, mas se precisar mudar, não tem dificuldade em gerar renda com ele. É o que chamamos de construção patrimonial sem raiz”, comenta.

Ricardo Cruz | Foto: Reprodução

Localização, tecnologia e bem-estar: a nova tríade de decisão

Quando decidem comprar, os jovens não olham apenas para o tamanho do imóvel ou o número de quartos. A decisão de compra passou por uma sofisticação que combina praticidade urbana, inovação tecnológica e qualidade de vida.

Patrícia Garrote detalha os atributos que fazem a diferença para esse público na Dinâmica Incorporadora. “Eles buscam a praticidade de empreendimentos próximos aos centros urbanos, com fácil acesso a transporte público, rede médico-hospitalar, escola e gastronomia. Valorizam muito saúde e bem-estar, então atributos de biofilia e wellness, como academia, espaço relax com banheira de crioterapia e quadra esportiva, são decisivos para a compra”, enumera.

Além disso, a tecnologia embarcada deixou de ser diferencial para se tornar pré-requisito. Fechaduras digitais, tomadas USB e infraestrutura para automação residencial estão na lista de desejos de quem cresceu em um ambiente hiperconectado.

“Eles querem mais do que ‘comprar um apartamento’: querem ‘morar em um lugar que reflita quem são'”, resume a diretora da Dinâmica. 

Ricardo Cruz acrescenta um elemento interessante sobre o nível de informação desse comprador. “O jovem da geração Z chega com muita informação, muito esclarecido. Ele conhece a construtora, fala de padrão construtivo, compara com outras capitais, usa inteligência artificial para encontrar o perfil do imóvel ideal. Quando vem negociar, já chegou com o meio caminho andado”, admira-se.

A voz de quem comprou: “Não foi um investimento fácil”

Aos 28 anos, o representante comercial Matheus Felipe de Rezende Moura materializa as estatísticas e as contradições desse momento. Em 2023, aos 25 anos, comprou seu primeiro imóvel na planta pelo programa Minha Casa Minha Vida, no Setor Faicalville, e hoje mora no apartamento enquanto ainda o paga.

Sua trajetória revela o esforço necessário para conquistar a casa própria na atual conjuntura. “Não era nenhum plano inicial, eu pensava em sair do país. Mas minha família ia se mudar e eu não teria condições de morar longe do trabalho. Eu já tinha dinheiro guardado desde os 17 anos, porque planejava o intercâmbio, e acabei investindo tudo no apartamento. Não foi um investimento fácil”, desabafa.

Matheus detalha o peso financeiro da operação: “Eu pago as prestações até perder de vista, parcelei em 240 vezes. Faço o esquema de pagar a primeira e a última para as parcelas irem diminuindo”.

Apesar do sacrifício, ele enxerga vantagens na comparação com o aluguel. “Se pegar minha prestação, somar com condomínio, água, energia e internet, fica em torno de R$ 1.400. Aqui no condomínio, os aluguéis não cobram menos de R$ 1.800. A longo prazo, fica muito mais barato.”

Sua percepção sobre a realidade dos amigos é preocupante. “Se pegar 100 jovens entre 25 e 30 anos, umas 5 conseguem comprar um imóvel próprio, é muito. Para a gente que está chegando agora, está muito mais difícil que para nossos pais e avós. Todo dinheiro que a gente ganha acaba indo embora de mil formas diferentes”, lamenta.

O mercado em números: vendas bilionárias e valorização expressiva

Enquanto os jovens enfrentam desafios individuais para entrar no mercado, o setor imobiliário de Goiânia vive um de seus melhores momentos da história. Os dados consolidados pela Ademi-GO mostram uma máquina que não para de girar, mesmo com a Selic em patamares elevados.

O presidente da Ademi-GO, Felipe Melazzo, comemora a consistência do mercado local. “Pelo segundo ano consecutivo, Goiânia vendeu mais de 8 bilhões de reais em imóveis. Esse fato demonstra como o nosso mercado mudou de patamar”, afirma. Em 2025, as vendas alcançaram R$ 8,1 bilhões, uma leve variação de 2% em relação aos R$ 8,25 bilhões de 2024, o que, segundo ele, evidencia equilíbrio.

Credson Batista contextualiza o crescimento histórico: “Em 2021 e 2022, registramos R$ 5,4 e R$ 5,7 bilhões. Em três anos, subimos para o patamar de R$ 8 bilhões, um crescimento de aproximadamente 50% no valor das vendas”. O preço médio do metro quadrado residencial em Goiânia fechou 2025 em R$ 10.531, uma valorização de 13,4% em relação ao ano anterior. O diretor lembra que, de 2021 para 2025, o preço dos imóveis praticamente dobrou na capital, saindo de R$ 5.600 para R$ 10.500.

Nos bairros nobres, os números são ainda mais impressionantes. No Setor Marista, o metro quadrado atinge R$ 13.326, enquanto a média nos quatro principais bairros (Bueno, Marista, Oeste e Jardim Goiás) se aproxima de R$ 12.700. No segmento comercial, alguns empreendimentos já ultrapassam a barreira dos R$ 20.000 por metro quadrado.

Comparações geracionais: contextos diferentes, prioridades distintas

Para entender a Geração Z, é inevitável compará-la com seus antecessores. Narikawa traça um paralelo esclarecedor entre as diferentes gerações e seus contextos econômicos.

“A Geração X iniciou a vida adulta em um contexto mais linear, com emprego formal estável e a casa própria como símbolo central de segurança. Os Millennials já enfrentaram maior instabilidade econômica e flexibilização do trabalho, atrasando a aquisição do imóvel, mas mantendo a meta. A Geração Z ingressa em um ambiente ainda mais dinâmico e digitalizado, com vínculos fluidos e transformação tecnológica constante”, diferencia.

O pesquisador destaca que a principal mudança está na dissociação entre segurança econômica e obrigatoriedade da casa própria. “Essa geração busca segurança também por meio de flexibilidade, múltiplas fontes de renda e qualidade de vida. Não se trata de maior fragilidade, mas de inserção em parâmetros econômicos e culturais distintos.”

Rômulo Tiago Santos observa uma adaptação pragmática dos jovens a essa realidade. “Com certeza há uma grande redução no poder de compra, porém a mente dessa nova geração está bem aberta às mudanças de mercado, como financiar menos área, um imóvel menor pelo mesmo valor”, pontua.

O papel do Minha Casa Minha Vida e as políticas públicas

Diante das dificuldades de acesso, o programa Minha Casa Minha Vida (MCMV) emerge como uma das principais portas de entrada para os jovens goianos. Matheus Felipe é um exemplo dele, seu financiamento foi viabilizado pelo programa, que oferece as menores taxas de juros do mercado.

No entanto, a participação do MCMV no estoque de Goiânia ainda é considerada baixa pelos especialistas. Dados da Ademi-GO mostram que as unidades enquadradas no programa representam menos de 22% do estoque total da capital.

Felipe Melazzo comemora os avanços recentes, mas alerta para a necessidade de agilidade do poder público. “Tivemos um ajuste necessário no teto do programa e a aprovação da Lei de Habitação de Interesse Social (HIS) em Goiânia. Agora começamos a ver os frutos, mas a demora no processo de legalização de novos empreendimentos preocupa. A prefeitura tem expectativa de entregar 15 mil unidades de interesse social, e as empresas querem atender essa demanda”, afirma.

Conselhos para a primeira compra

Diante de um mercado promissor, mas repleto de armadilhas, os especialistas ouvidos convergem para algumas orientações aos jovens que desejam ingressar no mundo do primeiro lar e investimento imobiliário.

“Comece pelo primeiro imóvel, não busque nesse momento o imóvel ideal, mas aquele que caiba no bolso. Depois você faz o upgrade. Se não estiver capitalizado, faça composição de renda com cônjuge, pais ou familiares. O primeiro imóvel não precisa ser o ideal, ele precisa ser o primeiro passo para construir um patrimônio e morar bem”, aconselha Patrícia Garrote.

Matheus Felipe, que vive na pele o processo, oferece sua visão realista: “Avalie bem a região onde você precisa morar, principalmente em relação ao trabalho. Se for comprar na planta, conheça a construtora, veja se é confiável. Avalie as opções de banco para saber qual tem a menor taxa. é necessário se precaver financeiramente umas três vezes, porque não está fácil. O pós-compra também é difícil, tem que mobiliar, comprar tudo. É muito caro, tanto no início quanto depois.”

Ricardo Cruz observa que, apesar das dificuldades, o jovem de hoje está mais preparado informacionalmente do que qualquer geração anterior. Isso, aliado a um mercado aquecido e a novas políticas de crédito, pode transformar o sonho da casa própria em realidade.

Narikawa, por fim, oferece uma reflexão que equilibra o desejo de realização com as necessidades de adaptação: “A Geração Z precisa compreender a importância do equilíbrio. Valorizar qualidade de vida é legítimo, mas pode ser necessário reorganizar prioridades e ajustar expectativas à realidade econômica. Construir patrimônio e preservar bem-estar não são objetivos incompatíveis. O desafio está em encontrar o ponto de equilíbrio entre liberdade, segurança e planejamento de longo prazo.”

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