Família o núcleo ignorado pela esquerda e distorcido pela direita
Do que é feito um povo? De símbolos, histórias, características genéticas…Muitas respostas podem ser apresentadas e até terão sua validade. Entretanto, no fim, é sempre sobre pessoas. Indivíduos que não se constituem apenas de si mesmos: somos, em grande parte, aquilo que fazem de nós.
Observe um bebê: antes de ser, ele imita; antes de pensar, ele mimetiza. Antes de nos tornarmos quem somos, fantasiamos ser outra pessoa — às vezes real, às vezes fictícia. Uns imitam heróis; outros, os próprios pais. A mente costuma preencher as lacunas da realidade.
O primeiro contato que temos com o mundo é aquilo que chamamos de família. É o primeiro teatro em que nos tornamos atores e personagens, mas o enredo já nos é dado de antemão, de muito antes. Nesse momento da reflexão, um questionamento se torna inevitável: o que tem sido feito das famílias no Brasil?
Agora, não questiono apenas o que tem sido nos últimos 10 ou 20 anos. Afinal, como foi dito, o enredo vem de antes, muito antes. Quando trouxemos, nos porões dos navios negreiros, mulheres violentadas, crianças famintas e homens espancados, que famílias surgiram daí?
Quando matamos, à bala, à espada e com doenças, os pais e mães que aqui estavam, que famílias surgiram daí?
Quando jogamos nas indústrias os desesperados do Norte, que famílias surgiram daí?
Quando nos perguntamos sobre a origem da violência urbana e doméstica, das epidemias sociais brasileiras, a resposta passa por essas perguntas. Muito do que buscam os adultos está nos olhos das crianças que vagam pelas ruas, sem pai, sem mãe, debaixo das asas da miséria, ainda vivendo como viviam seus antepassados nos tempos da senzala.
Vivemos uma herança maldita, em que homens se orgulham daquilo que deveria causar vergonha; em que crianças vivem o que adultos não aguentam; em que políticos se aproveitam da dor para conquistar poder. Parecem abutres que fazem da morte um banquete.
À esquerda, ignoram o tema da família, inventam retóricas, copiam mentiras antigas e desviam do foco. À direita, apropriam-se do discurso, inventam espantalhos e, como Dom Quixote, combatem moinhos como se fossem gigantes.
E nós, o povo, vagamos a sós, em um limiar fino entre ser cúmplices e ser vítimas. Afinal, o que poderíamos fazer?
Gostaria eu de ter essa resposta.
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