A névoa do real: sociedade em anestesia
Lucio Massafferri Salles*, Pragmatismo Político
Em fevereiro de 2026, um vídeo com 289 mil visualizações no Facebook mostrava Jair Bolsonaro declarando estar elegível para as eleições presidenciais.
A voz era dele. O rosto era dele. A declaração, não.
O vídeo foi gerado por inteligência artificial a partir de uma gravação real de junho de 2025. A Agência Lupa desmentiu. O vídeo continuou circulando. Não é o fato da falsificação que chama atenção. É o que aconteceu depois. Nada.
É deepfake vídeo em que Bolsonaro diz estar elegível para as eleições
Nenhum colapso de credibilidade. Nenhuma ruptura no ciclo de consumo da informação. O desmentido alcançou quem já desconfiava. O falso permaneceu onde estava, nas bolhas onde era verdade porque precisava ser. A isso não se dá o nome de desinformação. Desinformação pressupõe um estado anterior de informação que foi corrompido. O que se instala aqui é outra coisa.
Não se trata mais de erro. Trata-se de ambiente. É o que proponho chamar de névoa do real: a opacidade sistemática entre verdadeiro e falso como condição permanente do espaço público.
A névoa não é nova.
A falsificação organizada tem genealogia longa e documentada. Domenico Losurdo, citando a antropóloga Rebecca Lemov, associa o episódio de Pont-Saint-Esprit, na França, em 1951, a experimentos com LSD no contexto das pesquisas da CIA, uma hipótese apoiada em documentos e disputada por outras explicações. Citando o filósofo Giorgio Agamben, o mesmo Losurdo documenta como cadáveres foram desenterrados e reapresentados diante das câmeras para simular um genocídio e legitimar uma mudança de regime, na Romênia de 1989. O mecanismo não é invenção recente.
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O que é novo é que a névoa deixou de incomodar. A sociedade não foi enganada de uma vez. Foi anestesiada aos poucos. A cada ciclo de falsificação exposta e ignorada, o limiar do escândalo subiu um degrau. O que em 2016 ainda provocava indignação, uma mentira presidencial flagrante, um vídeo manipulado grosseiro, em 2026 provoca quando muito um encolher de ombros. Os números confirmam o processo. Segundo o Observatório Lupa, deepfakes com viés político quase triplicaram entre 2024 e 2025 no Brasil. O Digital News Report de 2025 registrou que mais da metade das pessoas entrevistadas declarou estar preocupada por não conseguir distinguir o que é real nas notícias online. A preocupação existe. O comportamento não muda. Essa distância entre saber e agir é um dos sinais mais precisos da anestesia. Trump é o operador mais eficiente desse ambiente, mas reduzi-lo a causa seria um erro de análise. Em março de 2026, enquanto bombas caíam sobre o Irã, ele declarou no Truth Social que havia conversas produtivas com Teerã. O Irã desmentiu em horas. Os mercados já haviam reagido. A verdade chegou tarde e pesou pouco. Pode ter havido algum contato por canais que nenhum dos lados confirmaria publicamente. Pode não ter havido nada. Ninguém sabe ao certo. E esse é precisamente o problema: declarações de guerra e paz, feitas pelo presidente da maior potência militar do mundo, já não são verificáveis em tempo real por ninguém.
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Quando a falsificação se torna sistemática, ela não corrompe apenas o falso. Corrompe a capacidade de reconhecer o verdadeiro quando ele aparece. O sujeito que viveu anos num ambiente de névoa densa não perde só a orientação. Perde a memória de como era ver com clareza. Byung-Chul Han chamou de psicopolítica o poder que age sobre o desejo antes que a razão entre em cena, e que encontrou nas tecnologias digitais seu instrumento mais eficiente e invisível. O que a névoa do real produz vai mais fundo: age sobre a capacidade de distinguir. Não convence de que o falso é verdadeiro. Instala a indiferença entre os dois.
O problema não é que as pessoas acreditem em deepfakes. É que muitas já não se perguntam se acreditam. A pergunta deixou de ser feita, não por preguiça, mas porque o ambiente ensinou que a resposta não muda nada.
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Não há solução rápida. Regulação de plataformas é necessária e insuficiente. Educação midiática é necessária e lenta demais para o ritmo da névoa. Antes de qualquer política, o que parece urgente é nomear o processo com precisão. Não como catastrofismo. Como diagnóstico. A névoa do real não é metáfora. É descrição de um ambiente em que a distinção entre verdadeiro e falso perdeu função operacional no espaço público. Um ambiente onde o deepfake de Bolsonaro circula com 289 mil visualizações e o desmentido chega depois, menor, mais tarde, para quem já não precisava ser convencido.
Nesse ambiente, a pergunta que resta não é quem mente. É o que fazemos quando mentir deixou de custar alguma coisa.
Referências: Agência Lupa (fev. 2026); Digital News Report 2025; Al Jazeera (mar. 2026)
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*Lucio Massafferri Salles é Psicólogo/Psicanalista, Jornalista, Professor Adjunto do Departamento de Psicologia da UCAM e Professor da Rede Pública de Ensino/RJ. Doutor e Mestre em Filosofia pela UFRJ, Especialista em Psicanálise pela USU, realizou seu estágio de Pós-Doutorado em Filosofia Contemporânea na UERJ. É o criador e responsável pelo canal Portal Fio do Tempo, no YouTube.
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