Helton Lenine: a morte de um profissional que sabia que só há uma profissão no jornalismo: a de repórter
Na década de 1990, por um bom período, Helton Lenine trabalhou na redação do Jornal Opção. Cuidava de notas e reportagens sobre prefeituras. Era o editor da coluna. Sempre bem informado, participava das reuniões de pauta e, às vezes, reclamava de seu caráter discursivo. Sobretudo, da demora. Começavam às 9 horas e alongavam-se, por vezes, até às 14 horas. “Tô morto de fome”, reclamava Lenine.;
Então, Lenine dizia: “Aos fatos”. Herbert de Moraes Ribeiro rebatia: “Não. À estrutura dos fatos. Precisamos apontar os elementos que os formataram”. Ríamos. Nossas reuniões de pautas — com José Maria e Silva, Helvécio Cardoso, Afonso Lopes, Rogério Lucas, José Luiz Bittencourt Filho e Léo Alves — eram cultas e, não raro, acerbas. Eram aulas de como se fazer jornalismo de qualidade.
Antes de continuar, Herbert quis saber: “Por que seu nome é Lenine e não Lênin?” Era, claro, uma homenagem ao líder bolchevique que comandou a Revolução Russa de 1917.
O jornalista explicou que, em Portugal e na França, escrevem Lenine. “Na França, sem a vogal ‘e’ no final, o nome seria pronunciado ‘Lenan’. Por isso, a opção, seguida por Portugal, por Lenine”.
O jornalista era comunista, de esquerda? Não. Mas também, ao menos na época, não era de direita. Era de centro, algo assim. Mas gostava mesmo era de conversar com todos, de manter relacionamentos pessoais com todos, não pela amizade em si (e, sim, prezava a amizade), mas pela busca incessante de informações exclusivas.
Como repórter, Lenine brilhou em “O Popular”, no Jornal Opção e no “Diário da Manhã”. Era sempre bem informado e dono de uma memória de elefante. Sempre consultei o jornalista — assim como Hélio Rocha e Luiz Carlos Bordoni — a respeito de fatos (quase) imediatos (a partir de 1964) da história de Goiás.
Lenine sabia o nome de todo mundo, quais cargos os políticos haviam ocupado ao longo da carreira, e apreciava compartilhar informações de bastidores. Como repórter, apurava bem (com precisão) e era rápido no gatilho.
O repórter que influenciava políticos
Artista do diálogo, era um jornalista tão influente que, às vezes, era convidado para dar palpites em reuniões de políticos.
Vilmar Rocha, eleito deputado federal em 1982, aos 31 anos, descobriu em Lenine um interlocutor preciso. “Na época, Lenine tinha 28 anos e um olhar aguçado para os fatos políticos.”
“Lenine era apaixonado por política, participava de reuniões com políticos e dava palpites frequentemente certeiros”, afirma Vilmar Rocha. “Com o tempo, se tornou um amigo. Era bem informado, antenado. Na quinta-feira, 2, me ligou e disse que estava numa UTI. Já havia sido internado outras vezes, e contava já com sete stents, então pensei que sairia, mais uma vez, do hospital com vida. Era um resistente. Era diabético, mas se cuidava, na medida do possível.”
Vilmar Rocha ligou para o Jornal Opção para falar sobre o amigo Lenine. “Lamento demais sua morte. A rigor, éramos companheiros de geração.” O ex-deputado, de 75 anos, era três anos mais velho do que o jornalista. “Lenine era um repórter sênior, da estirpe dos que sabem tudo de política. Nada lhe escapava. Sua cabeça continha um ‘quem é quem’ da política de Goiás.”
O deputado federal José Nelto ligou para o Jornal Opção para expressar seu lamento pela morte de Lenine. “Nós éramos amigos. Lenine me ligava todos os dias para saber das novidades. Por vezes, era ele quem, bem informado, me contava as novidades. Lenine tinha 72 anos, mas parecia eternamente jovem. Tinha uma mente ágil e estava sempre interessado nas articulações políticas. Ele me ligava às 7 horas da manhã. Não ligava mais cedo acreditando que eu estava dormindo. Aprendi muito com Lenine.”
“O que corria no sangue de Lenine? Jornalismo. Ele nasceu para reportar e analisar fatos”, sublinha José Nelto. “Vou sentir muita falta de seus telefonemas e de sua cordialidade.”
Há um excelente e polêmico WhatsApp de Repórteres Políticos. Estão lá jornalistas e intelectuais do primeiro time: Luiz Carlos Bordoni, Nilson Gomes, Wellinton Carlos, Gercyley Batista, Ulisses Aesse, Valterli Guedes, Diogo Luiz, Ketelbey, Nilson Jaime, Marcelo Mendes, Bruno Rocha Lima, João Carvalho, Divino Olávio, Edson Rodrigues, João Paulo Teixeira, Marcelo Heleno, Messias, Marcos Aurélio, Sinésio Dioliveira, Tony Carlo, Vassil Oliveira, entre outros.
Um dos participantes mais ativos era Lenine, sempre provocador. Seus comentários geravam debate, às vezes respostas ácidas. Porém, a não ser que me tenha escapado, nunca o vi irritado com os colegas. O clima é respeitoso. Aqui e ali uma voz altera-se, elevando-se, mas, no geral, o tom é de uma cordialidade ímpar.
Lenine não era adicto à política do ódio. Pelo contrário, tinha prazer em conviver bem com políticos e jornalistas. Almoçava frequentemente com vários deles, de correntes ideológicas variadas. Como todo bom repórter, não excluía ninguém de seus contatos.
Pode-se sugerir que Lenine morreu como quis: ou seja, foi repórter a vida toda. Era do time que avalia que, no jornalismo, só há uma profissão — a de repórter. Editor é cargo, não é profissão. O editor que deixa de ser repórter acaba por deixar de ser jornalista.
Parecia mal humorado, dada sua ironia fina, mas não era. Pelo contrário, era bem-humorado e, como cidadão, solidário.
Conto a seguir uma história curiosa. Há alguns anos, fiquei sabendo que o Santos iria jogar em Goiânia, salvo engano contra o Atlético. Como queria ver Neymar jogando — é um craque indispensável à seleção; o único fora de série da atualidade —, fui ao Estádio Serra Dourada. Não havia lido as páginas esportivas e, por isso, não sabia que Neymar não iria jogar.
O jogo estava modorrento, chato pra caramba. Então, como havia levado um livro, comecei a ler. Acho que li umas 50 páginas. Quando estou lendo, fico tão concentrado que nem escuto direito a barulheira. No dia seguinte ao jogo, Lenine me liga: “Você foi ao estádio ontem?” Confirmei. Perguntei: “Você me viu lá?” Ele respondeu: “Vi, de longe, uma pessoa lendo e concluí logo: só pode ser o Euler”. Rimos muito e nos despedimos.
O jornalismo e a sociedade perderam um grande bom profissional e um cidadão de bem e do bem.
Helton Lenine, com aquela sua careca luzidia, morreu, aos 72 anos, na quinta-feira, 2.
O que diz o jornalista Welliton Carlos sobre Lenine
“Lenine tinha uma história. Conheci ele quando o João Bosco pediu uma pauta sobre um acidente de avião com um político goiano. Tem tanto tempo! E o Lenine não foi no avião. Era uma cobertura na época do Ary Valadão.
“José de Assis morreu no acidente. Lenine não. Ou seja, escapou da morte e viveu muito!
“Lenine era amigo dele. Apostou as fichas da época que ele seria indicado governador biônico. E foi. Irapuan indicou. Mas os grupos ligados ao ex-governador Leonino Caiado apontaram pra Ary Valadão, que seria mais robusto. E assim o amigo de Lenine não só não foi indicado como morreu no famigerado acidente.”
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